Americano, norte-americano, estadunidense ou estado-unidense ?

É correto utilizar “americano” como o adjetivo pátrio (ou gentílico) de quem nasce nos Estados Unidos ? Bem, é preciso pensar na correção do termo sob duas perspectivas: a lingüística e a geopolítica. Lingüisticamente, tanto “americano” quanto “norte-americano” são termos aceitos, e às vezes até recomendados, por dicionários e manuais de redação. O motivo é simples: o uso. A palavra que é mais usada pelo povo acaba se tornando a “padrão”. Sem dúvida alguma, “americano” ainda é o gentílico mais usado no Brasil para se referir a quem nasceu nos EUA, seguido do também popular “norte-americano”.

O problema surge quando relevamos as questões geográficas e políticas envolvidas no assunto. Como todos sabem, “americano” é o termo que designa qualquer pessoa que nasceu no continente chamado América, nome dado em homenagem ao navegador Américo Vespúcio (Amerigo Vespucci em italiano). Igualmente, “norte-americano” é usado para indicar uma pessoa que nasceu, especificamente, na parte de cima da América, conhecida como América do Norte. Logo, tenho embasamento suficiente para dizer que sou americano, pois nasci na América, ou, mais especificamente, sul-americano. Um mexicano, por outro lado, é americano e norte-americano também, já que o México fica na América do Norte. O mesmo vale para um canadense. Conclui-se disto que nenhum dos termos é satisfatoriamente preciso. Ninguém saberia de que país veio um sujeito que se denominasse “árabe”, um termo genérico. O melhor seria dizer, especificamente, “emiradense” se veio dos Emirados Árabes Unidos ou “saudita” se veio da Arábia Saudita, ainda que “árabe” seja um adjetivo pátrio aceito para esses dois países. A lógica para os EUA é a mesma, conquanto as pessoas entendam o que se quer dizer com “americano”.

Nos EUA e alguns outros países anglófonos, é comum referirem-se à nação como “America”, simplesmente. Comem o “United States of”. O histórico colonialismo praticado pelos EUA e o óbvio poder político-econômico que o país detém (que o transformou na nação mais poderosa do pós-Guerra) acabam reforçando o uso de “America” e “American”, como na popular frase “American way of life”. Em português, fazemos o contrário do que fazem em inglês: falamos só “Estados Unidos”, comemos o “da América”. É mais um motivo pelo qual não faz sentido utilizarmos “americano” como gentílico: não combina, não é lógico. O adjetivo pátrio deve, pelo menos em teoria, se assemelhar ao nome do país a que se refere: Canadá – canadense, Austrália – australiano, Panamá – panamenho, Suíça – suíço, Rússia – russo etc. Se nos referimos ao país como Estados Unidos, é estranho chamar seus habitantes de “americanos”.

O que se pode concluir, portanto, é que “americano” e “norte-americano” são termos injustos, inexatos e ambíguos do ponto de vista geopolítico. As alternativas são “estado-unidense” e “estadunidense”, termos bastante específicos e corretos tanto do ponto de vista geopolítico quanto lingüístico, além de serem parecidos com o nome do país a que se referem. Por uma questão visual e de praticidade, prefiro a palavra única “estadunidense” em vez da palavra composta “estado-unidense”, que é um pouco mais utilizada em Portugal, mas ambas são aceitáveis. São estas duas formas que aconselho usar em textos de maior seriedade, ou seja, mais formais.

 

© 13 de Abril de 2016, por Klaus die Weizerbüken. Cópia permitida mediante crédito ao autor e ligação ao blogue.

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~ por Klaus die Weizerbüken em 02/05/2016.

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