O Cristianismo de Adolf Hitler

Hitler citação

Trecho do livro “Deus — A Maior Mentira da História”, de Klaus de Weizerbüken:

É comum ouvir teístas e religiosos fervorosos alegarem que atrocidades foram cometidas em nome do ateísmo ou por causa dele. Bem… se alguém na História fez alguma barbárie pelo ateísmo, fez questão de esconder muito bem. Não há registro de político, militar ou líder nacional que tenha declarado ter tomado qualquer decisão ou atitude com o ateísmo em mente ou pelo bem do ateísmo. Pelo contrário, vários admitiram a influência das religiões e de Deus em seus atos. Alguns até fizeram da fé um elemento central em suas campanhas políticas e conseqüentes mandatos (vide Jimmy Carter e George Bush nos EUA e todos os deputados, senadores e ministros religiosos em qualquer país).

                Quanto ao ateísmo ser a causa de atrocidades, quem diz isso confunde a regra de causa e efeito com coincidência ou fortuidade. Dizer que Stálin, Mao Tsé-Tung e Pol Pot fizeram tudo o que fizeram por terem sido ateus é o mesmo que dizer que eles fizeram o que fizeram por terem sido destros, heterossexuais ou vegetarianos. Não houve relação entre seu ateísmo e os atos que cometeram. O mesmo não pode ser dito com relação a Hitler e seu teísmo. Pode-se argumentar que foi a educação religiosa recebida na infância e na adolescência que o motivou a odiar e perseguir judeus (lembre-se de que o anti-semitismo tem origem bíblica). Ademais, ele cria estar cumprindo seu papel de cristão neste mundo ao fazer o que fez. Se analisamos seus discursos e escritos públicos, é impossível chegar à conclusão de que Hitler, em dado momento da juventude um aspirante ao sacerdócio, era ateu. Veja algumas de suas declarações1:

 

“Meus sentimentos como cristão apontam para meu Senhor e Salvador como um lutador (…) um homem que (…) reconheceu esses judeus pelo que eram e convocou homens para lutar contra eles (…) Em infinito amor como um cristão e como um homem, li a passagem que nos conta como o Senhor se levantou em sua glória e expulsou do Templo as raças de víboras e áspides. Como foi maravilhosa Sua luta pelo mundo contra o veneno judeu. Hoje, após 2000 anos, com a mais profunda emoção eu reconheço mais profundamente que nunca que foi por isso que Ele derramou seu sangue na cruz. Como um cristão, não me posso permitir ser trapaceado, tenho o dever de ser um lutador pela verdade e justiça… E se há algo que pode demonstrar que estamos agindo corretamente é a angústia que cresce diariamente. Pois, como cristão, também tenho um dever para com meu próprio povo. Quando saio de manhã e vejo esses homens parados em filas e olho para seus rostos sofridos, então creio que não seria cristão, senão puramente diabólico, se não sentisse pena deles, se eu, como fez nosso Senhor 2000 anos atrás, não me virasse contra aqueles por quem, hoje, esse pobre povo é roubado e explorado.”

“Por isso, hoje, acredito estar agindo de acordo com a vontade do Todo-Poderoso Criador: ao me defender contra o judeu, estou lutando pelo trabalho do Senhor.”

“A Igreja Católica considerou os judeus pestilentos por 15 séculos, colocou-os em guetos, porque ela reconhecia os judeus pelo que eram. Eu reconheço os representantes dessa raça como pestilentos para o Estado e para a Igreja e talvez esteja, destarte, fazendo um grande serviço ao cristianismo ao expulsá-los das escolas e cargos públicos.”

“O fundador do cristianismo não fez segredo de sua estima pelo povo judeu. Quando achou necessário, expulsou do Templo de Deus esses inimigos da raça humana que, então, como sempre, viam na religião nada além de um instrumento para a existência de seu negócio. Em troca, Cristo foi pregado à cruz, enquanto nossos políticos cristãos atuais se rebaixam ao implorar por votos judeus nas eleições e depois tentam arranjar maracutaias políticas com partidos judeus ateístas — e isto contra sua própria nação.”

“O homem de mentalidade popular, em especial, tem o dever sagrado, cada um em sua denominação, de fazer as pessoas pararem de falar superficialmente sobre a vontade de Deus, e realmente cumprir a vontade de Deus, e não permitir que a palavra de Deus seja profanada. Pois a vontade de Deus concedeu ao homem sua forma, sua essência e suas habilidades. Qualquer um que destrua Seu trabalho está declarando guerra à criação do Senhor, a vontade divina.”

“Não toleramos ninguém em nossos postos que ataque as idéias do cristianismo… na verdade, nosso movimento é cristão.”

“Sou agora, tanto como antes, um católico, e continuarei assim para sempre.”

“Nós estávamos convencidos de que o povo precisa dessa fé. Por isso, colocamos em prática nossa luta contra o movimento ateu, e não somente com algumas declarações teóricas; nós acabamos com ele.”

“São os cristãos, e não os ateus internacionais, que estão no poder na Alemanha. Não falo meramente do cristianismo, não, eu também afirmo que nunca hei de me aliar com os partidos que têm como objetivo destruir o cristianismo.”

“O Nacional-Socialismo nem se põe à Igreja nem é antirreligioso; pelo contrário, ele se firma na base do real cristianismo. Os interesses da Igreja coincidem com os nossos interesses na luta contra os sintomas da degeneração no mundo de hoje, na nossa luta contra a cultura bolchevique, contra o movimento ateu, contra a criminalidade, e na nossa luta pela consciência de uma comunidade em nossa vida nacional, pela vitória sobre o ódio e a desunião entre as classes, pela vitória sobre as inquietações e guerras civis, os conflitos e a discórdia. Esses não são princípios anticristãos, são princípios cristãos.”

“O Estado Nacional-Socialista professa sua lealdade ao cristianismo positivo. Esforçaremo-nos para proteger as grandes confissões cristãs em seus direitos, protegê-las da interferência em suas doutrinas (…)”

“O Nacional-Socialismo sempre afirmou que está determinado a abrigar as igrejas cristãs sob proteção do Estado.”

“Escolas seculares nunca poderão ser toleradas porque tais escolas não têm instrução religiosa, e uma instrução moral geral sem uma fundação religiosa é feita de vento; conseqüentemente, todo o treinamento do caráter e da religião devem vir da fé… Nós precisamos de um povo crente.”

“Munidos do desejo de proteger para o povo alemão os grandes valores religiosos, morais e culturais enraizados nas duas confissões cristãs, abolimos as organizações políticas, mas fortalecemos as instituições religiosas.”

“A Igreja e o Povo alemães são praticamente o mesmo corpo. Logo, não poderia haver problemas entre a Igreja e o Estado.”

“O fato de que o Vaticano está concluindo um tratado com a nova Alemanha significa o reconhecimento do Estado Nacional-Socialista pela Igreja Católica. Esse tratado mostra ao mundo todo, clara e inequivocamente, que a asserção de que o Nacional-Socialismo é hostil à religião é uma mentira.”

“Não importa se essas armas nossas são humanas: se elas nos trazem nossa liberdade, elas são justificadas perante nossa consciência e perante nosso Deus.”

“Acredito na Providência e acredito que a Providência seja justa. Logo, acredito que a Providência sempre recompensa os fortes, os trabalhadores e os honestos.”

“Interpreto isso como um sinal da Providência de que devo continuar meu trabalho, e, portanto, continuá-lo-ei.” (após ter escapado de uma tentativa de assassinato)

“Durante nossos longos anos de luta, não tivemos outra prece senão esta: Senhor, dê a nosso povo a paz em casa e lá fora !”

“Nunca perdi minha crença, em meio aos contratempos de que não fui poupado durante meu período de luta. A Providência teve a última palavra e me trouxe sucesso.”

“Seguimos em frente com a mais profunda fé em Deus para o futuro. Teria aquilo que conquistamos sido possível se a Providência não nos tivesse ajudado ?”

“Deus, o Todo-Poderoso, fez nossa nação. Ao defender sua existência, estamos defendendo Seu trabalho.”

“O Movimento Nacional-Socialista construiu esse milagre. Se o Deus Todo-Poderoso concedeu sucesso a esse trabalho, então o Partido foi Seu instrumento.”

“Se seguirmos esse caminho, se formos decentes, trabalhadores e honestos, se tão leal e verdadeiramente cumprirmos nosso dever, então é minha convicção de que no futuro, assim como no passado, o Senhor Deus sempre nos ajudará.”

“Não se pode presumir que Deus existe para ajudar as pessoas que são muito covardes e muito preguiçosas para ajudar a si próprias e pensar que Deus existe apenas para compensar a fraqueza da humanidade. Ele não existe para esse propósito. Ele sempre, em todos os tempos, abençoou apenas aqueles que estavam preparados para lutar suas próprias batalhas…”

“Como Führer do povo alemão e Chanceler do Reich, posso agradecer a Deus neste momento por Ele ter tão maravilhosamente nos abençoado em nossa árdua luta pelo que é nosso direito, e imploro a Ele que nós e todas as outras nações encontrem o caminho certo, para que não só o povo alemão, mas toda a Europa, possa mais uma vez receber a bênção da paz.”

“Creio em Deus e estou convencido de que Ele não desertará 67 milhões de alemães que trabalharam tão duro para reconquistar sua merecida posição no mundo.”

“Além disso, acredito em uma coisa: há um Senhor Deus ! E este Senhor Deus cria os povos.”

“Os Dez Mandamentos são um código de vida para o qual não há refutação. Esses preceitos correspondem a necessidades indiscutíveis da alma humana; eles são inspirados pelo melhor espírito religioso (…)”

 

Debate-se a possibilidade de Hitler, como vários outros estadistas, ter apenas utilizado a religião com intuitos políticos (seu inimigo Stálin o fez com muita lábia). Segundo muitos, ele não era um verdadeiro cristão. Pelo contrário: odiava o cristianismo e desejava sua total aniquilação. O problema é que tais alegações vêm, justamente, de cristãos, os quais fariam de tudo para esconder que o ditador mais vil e detestado da história compartilhava de sua fé. Em sua defesa, cristãos citam trechos do infame Tischgespräche im Führerhauptquartier, algo como “Discussões à mesa no quartel-general do Führer”. Trata-se de uma compilação de anotações feitas por secretários de Hitler de algumas de suas declarações privadas aos membros do partido nacional-socialista durante reuniões nos diversos esconderijos nazistas espalhados pela Europa. Redigido originalmente em taquigrafia, um tipo de escrita complicado, de pouca difusão e difícil interpretação, o documento é tido como legítimo, mas vários questionamentos foram levantados a seu respeito2. Há controvérsias sobre as traduções originais da obra para inglês e para francês, a fiabilidade de determinadas edições lançadas e a possibilidade de um dos secretários responsáveis pelas anotações, o anti-cristão Martin Bormann, ter maliciosamente alterado o discurso do Führer para passar a impressão de que seu líder era, também, anti-cristão.

                Os excertos mais divulgados pelos cristãos para demonstrar que Hitler não era cristão incluem “Nunca aceitarei pessoalmente a mentira cristã” e “Nossa época certamente verá o fim da doença do cristianismo. Durará outros 100 anos, 200 anos talvez”, trechos questionados pelos estudiosos para os quais versões alternativas mais fiéis foram propostas: “(…) fazer algo errado contra seu próprio conhecimento pessoal, isso está fora de questão ! Não se deve aceitar pessoalmente essa mentira” e “É a lei da vida: defenda-se ! O tempo em que vivemos indica o colapso dessa idéia. Ainda pode levar 100 ou 200 anos”.

               Se aceitarmos esses manuscritos duvidosos como verdadeiros, então temos um Hitler que demonstra uma visão diferente da que professava em público (como acontece com qualquer político). Nos anos finais de sua vida, principalmente a partir de 1941, teve grande desilusão com a Igreja Católica e, posteriormente, com o cristianismo de maneira geral. Concluiu que a Igreja era um órgão hipócrita, explorador e mais político que religioso. O cristianismo, uma religião “flácida”, falha, ultrapassada, precursora do bolchevismo, uma “rebelião contra a lei natural”. A Bíblia, uma “balela judaica”. Mesmo assim, não abriu mão do conceito de Providência divina.

                Chega a ser cômico que, ao mesmo tempo, cristãos consigam taxar Stálin, Mao, Pol Pot e outros de ateus, mesmo que eles não tenham confessado seu ateísmo (aparentemente, apenas Stálin o fez), e negar veementemente que Hitler era teísta e, principalmente, cristão. Em outras palavras, fabricam evidências do ateísmo de ditadores sanguinários por meio de especulações selvagens, mas não apresentam evidência alguma do suposto ateísmo de Hitler, além, é claro, de ignorarem completamente as inúmeras referências dele a Deus, à Providência, ao cristianismo, à Igreja Católica, à sua fé pessoal e à sua perseguição ativa aos ateus do Terceiro Reich (que, como ele mesmo disse, não ficou só no papel: em 1933, o Partido Nazista baniu grupos ateus e livres-pensadores). Vai entender !

               Junte a isso tudo o fato de o ateísmo lembrar Hitler dos Estados comunistas e toda a ideologia por trás do governo de Stálin, seu arqui-rival, e fica realmente difícil de acreditar que ele tenha compartilhado da opinião do homem que tão odiosamente criticou. Portanto, pode-se dizer com extenso fundamento que não passa de especulação o ateísmo de Hitler, já que ele mesmo, como outros grandes líderes políticos cruéis e totalitários, nunca admitiu nada remotamente parecido. E mesmo que ele tivesse sido um ateu enrustido, mesmo que descobríssemos algum diário seu onde estivesse a confissão “nunca acreditei em Deus, apenas fingia”, não faria a mínima diferença. Apenas voltaríamos ao assunto tratado no início deste comentário, quando disse que não há relação entre ser ateu e discriminar e matar milhões de pessoas.

                Filosoficamente falando, podemos classificar essa estratégia teísta desonesta como um non sequitur — proposição em que a conclusão não tem relação lógica ou é necessariamente causada pela(s) premissa(s). Quanto à comparação que fazem de ateus a Hitler, trata-se de um reductio ad Hitlerum — acusação gratuita de que a pessoa faz algo ou pensa como Hitler, uma figura de conotação altamente negativa. De quebra, já nasce aí uma falácia de associação, quando a pessoa é acusada de algo ruim por estar relacionada a algo ruim (“Hitler era ateu, então, se você é ateu, é tão ruim quanto ele”). Parece ser verdadeira a chamada “Lei de Godwin”: quando uma discussão, sobre qualquer assunto que seja, se estende o bastante, alguém, em algum momento, vai chamar alguém de nazista e/ou compará-lo a Hitler, numa óbvia tentativa de desmoralizar o recipiente da acusação.

 

FONTES:

1) http://www.nobeliefs.com/speeches.htm
https://en.wikiquote.org/wiki/Religious_views_of_Adolf_Hitler

2)

Trevor-Roper, H.R. (2000). Hitler’s Table Talk 1941–1944. New York: Enigma Books, p. vii. https://books.google.com.br/books?id=fk-aXlliu6cC&pg=PR17&redir_esc=y#v=onepage&q&f=false
Carrier, R.C. (2003). “‘Hitler’s Table Talk’: Troubling Finds” German Studies Review 26 (3): 561-576. https://media.8ch.net/pdfs/src/1429265963793.pdf
Vollnhals, Clemens (2005). “Hitler’s Table Talk” In Richard Levy, ed., Antisemitism. Santa Barbara: ABC-CLIO, pp. 308–309. https://books.google.com.br/books?id=Tdn6FFZklkcC&pg=PA308&redir_esc=y#v=onepage&q&f=false
Jochmann, Werner (1980). Monologe im Führer-Hauptquartier 1941–1944. Hamburg: Albrecht Knaus Verlag. https://books.google.com.br/books?id=_TUJAQAAIAAJ&redir_esc=y
Bucher, Rainer (2011). Hitler’s Theology: A Study in Political Religion. London: Continuum, p. viii. https://books.google.com.br/books?id=FS8SBwAAQBAJ&pg=PR8&redir_esc=y#v=onepage&q&f=false
Prowe, Diethelm (2013). “Review Hitler by A. N. Wilson.” Central European History 46 (02): 437. http://journals.cambridge.org/action/displayAbstract?fromPage=online&aid=8968995
Kershaw, Ian (2001). Hitler 1936–1945: Nemesis. London: Penguin, p. 964. https://books.google.com.br/books?id=B5fJYMxufVcC&pg=PA964&redir_esc=y
Rich, Norman (1992). Hitler’s War Aims. New York: W. W. Norton & Company, p. 270. https://books.google.com.br/books?id=1nPPbpXUZA0C&pg=PA270&redir_esc=y
Laqueur, Walter (1978). Fascism: A Reader’s Guide. Berkeley: University of California Press, p. 177. https://books.google.com.br/books?id=2s8OaLD7y_oC&pg=PA177&redir_esc=y#v=onepage&q&f=false

 

BIBLIOGRAFIA: 

Baynes, Norman H. Ed. “The Speeches of Adolf Hitler, April 1922-August 1939,” Vol. 1 of 2, Oxford University Press, 1942

Cornwell, John, “Hitler’s Pope: The Secret History of Pius XII,” Viking, 1999

Steigmann-Gall, Richard “The Holy Reich: Nazi conception of Christianity, 1919-1945,” Cambridge University Press, 2003

Max Domarus & Patrick Romane. “The Essential Hitler: Speeches and Commentary”, Bolchazy-Carducci, 2007

 

© 2014/2016, por Klaus die Weizerbüken. A cópia deste artigo é permitida mediante crédito ao autor e ligação ao blogue.

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~ por Klaus die Weizerbüken em 10/02/2016.

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