Diga NÃO ao NAO

                1º de Janeiro de 2016 marca a instituição oficial do Novo Acordo Ortográfico como o padrão da língua portuguesa no Brasil. Quer dizer, se nada acontecer até lá. É difícil acreditar que, depois de 26 anos de contratempos, ele finalmente passará a valer. Sua origem remonta a 1990, mas só foi promulgado pelo Congresso Nacional em 1995 (apesar de dever ter entrado em vigor no ano anterior, segundo o texto oficial). Nada aconteceu até 2004, quando foi ratificado um protocolo modificativo. Entretanto, a assinatura oficial do decreto de promulgação, garantindo o comprometimento de sua implantação, só se deu em 2008, sendo Janeiro de 2009 a data estabelecida para começo de sua vigência. Passaram, então, a valer as duas grafias, a “velha” e a “nova”, mas apenas durante um período transitório. O NAO só passaria a viger exclusivamente em 31 de Dezembro de 2012. Pouco tempo antes desse dia, houve prorrogação: foi decidido que 2016 seria mais propício para sua implementação.

                Desde 2009, quando o NAO virou notícia e passou a ser quase tão comentado na internet quanto fofocas televisivas, milhares de livros e outros meios de publicação foram reeditados em conformidade às novas regras. Uma bela jogada de marketing, visto que muita gente se sentiu compelida a recomprá-los por seu caráter mais “atual”, substituindo os “desatualizados” que haviam comprado até o ano anterior. Milhões de pessoas em toda a CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) começaram a se inteirar das normas agora vigentes e trataram de atualizar sua escrita no dia-a-dia. Eu não. Caso contrário, não teria acabado de escrever “dia-a-dia” com hífens ou “Janeiro”, no primeiro parágrafo, com letra maiúscula.

                Meus motivos para não aderir à nova ortografia em meus textos pessoais mesmo após a data oficial (o que, tecnicamente, fará de mim um criminoso) são bastante simples e fundamentados. O principal é o fato de que essa decisão de alterar a grafia da língua portuguesa não teve caráter lingüístico, como seria de se esperar, mas político e econômico. A idéia de que haverá uma unificação dos povos em razão de uma mera aproximação lingüística é tola e irrealista. Além disso, mesmo após as alterações do último acordo, o português continuará apresentando diferenças entre suas diversas variedades nos 10 territórios lusófonos (e.g.: em Portugal é “académico”, no Brasil é “acadêmico”. Lá é “amámos”, aqui é “amamos”. Na terra de Camões é “cancro”, na terra de Machado de Assis é “câncer”). Ou as variedades de uma língua são padronizadas por completo ou não são padronizadas, e obviamente sou a favor da segunda em respeito à diversidade lingüística. Padronizá-las parcialmente não faz sentido. A esperada aproximação econômica/potencialização das relações comerciais entre os países lusófonos também soa forçada. Em resumo, não há motivo real para justificar essa reforma ortográfica senão uma homogeneização de fins comerciais e geopolíticos, e mesmo estes um pouco ilusórios. Mudanças numa língua deveriam ter como justificação apenas aspectos lingüísticos à luz de questões culturais, mais nada. Se não for assim, que não a mudem.

                Não sou, contudo, contrário a todas as novas normas (mesmo porque várias delas não são alterações, mas corroborações de normas anteriores). Para explicar melhor, vou analisar cada uma a seguir, omitindo as que não mudaram nada:

– Base I: introduz as letras K, W e Y ao alfabeto português. Medida cretina e sem razão de ser, visto que tais letras não existem na língua portuguesa. As únicas vezes em que as usamos é quando escrevemos nomes estrangeiros, e, se são estrangeiros, não são portugueses. Logo, “Kant” não é português, mas apenas a escrita alemã do nome do filósofo que também é utilizada em português por se tratar de nome próprio (não traduzível), bem como “chomskyano” e “wagneriano” são neologismos em forma de aportuguesamentos que se baseiam em nomes estrangeiros, por isso não foram alterados para “tchomisquiano” e “vagneriano”. Em abreviações como Km e Kg, apenas seguimos o padrão do Sistema Internacional, que estabelece essa escrita como a “oficial” em todo o mundo. Se formos escrever as palavras por extenso, temos de utilizar o dígrafo QU.

– Base IV: derruba as letras mudas não pronunciadas. “Óptica” vira, oficialmente, “ótica”, já que o P não é falado. O mesmo vale para “suscetível”, que podia ser grafado como “susceptível”. Isso não vale, por exemplo, para “ficção” e “núpcias”, em que as letras mudas são ditas. Em Portugal, cai o C em “acção”, “afecto” e outras, algo que já não havia aqui mesmo antes do NAO. Apóio a alteração no Brasil por uma questão de lógica e praticidade (não faz sentido escrever uma letra que não é pronunciada), mas creio que a grafia de outros países deva ser respeitada. Se os portugueses escrevem “exacto” e “Egipto” há séculos, que continuem escrevendo.

– Base IX: corrobora regras de acentuação de paroxítonas já estabelecidas e muda algumas. Paroxítonas com letras repetidas (“vêem”, “vôo”) não são mais acentuadas. O acento diferencial entre “pelo” (fusão de preposição com artigo) e “pêlo” (substantivo) ou “para” (prep.) e “pára” (conjugação do verbo parar) cai. No primeiro caso, tirando-se o acento de “vôo”, a única pronúncia possível é a mesma que com acento, ou seja, a retirada do acento não muda nada; por isso, não sou contra, apesar de preferir “vôo” mesmo. Já no segundo caso, a omissão do acento é perigosa porque pode dar margem à ambigüidade, como nas frases “ele nunca para para pensar” e “escoou o pelo pelo ralo”, onde aparenta haver uma palavra repetida (além de ser feio e estranho). Convém lembrar que o acento diferencial presente em “pôde” (passado de “poder”) e “pôr” (verbo) permanece. “Fôrma” para diferenciar de “forma” é facultativo.

                A mudança mais grave introduzida nesta base é a extinção do acento agudo em paroxítonas cuja sílaba tônica é EI ou OI. “Plateia”, e não mais “platéia”. “Heroico”, não mais heróico”. O problema disso é que não temos mais como saber a pronúncia de palavras desse tipo, ficando em dúvida durante, por exemplo, uma leitura em voz alta de um termo desconhecido. “Introito” lê-se “intrôito” ou “intróito” ? “Boleia” lê-se “bolêia” ou “boléia” ? A regra antes era simples: se tem acento agudo, a vogal é aberta (É ou Ó). Se não tem acento, é fechada (Ê ou Ô). Se não há acento de nenhuma forma, ler esses termos virou um jogo de adivinhação. Além disso, mesmo as palavras que já conhecemos não têm justificativa para continuarem a ser pronunciadas da forma anteriormente correta. “Ideia” sem acento agudo parece mais “idêia” que “idéia”. Como desculpa, os proponentes do acordo alegam que ele só altera a grafia, não a pronúncia. Em outras palavras, eles querem que a gente “finja” que tem um acento ali e pronuncie dessa forma. Ora, desde quando a leitura de palavras passou a ser um processo de dissimulação, de falseamento, de auto-ilusão ? Certamente, esta nova regra de acentuação mais confunde que esclarece.

– Base X: extingue a acentuação do I e do U tônicos em oxítonas e paroxítonas em alguns casos. A falta de acento em casos de verbos como “enxaguar”, que era conjugado no subjuntivo e no imperativo para a terceira pessoa do singular como “enxagúe”, pode gerar confusão. Qualquer leitor desatento (ou ignorante mesmo) leria “enxague” como “enxágüe” ou “enxágue”, com acento no A, não no U (que é a tônica), motivo pelo qual acho que o acento deveria ser mantido excepcionalmente em verbos desse tipo. Quanto à queda de acento em paroxítonas cujo I ou U tônico é precedido de ditongo, concordo. Uma das regras mais elementares da língua é: corte o sobejo, ou seja, se não é necessário, não há porque existir. Não era necessário um acento em “feiúra”, que agora é “feiura”, “maoísmo”, que agora é “maoismo”, ou “Sauípe”, agora “Sauipe”.

– Base XIV: a meu ver, a mudança mais polêmica em todo o acordo: o assassinato do trema, também conhecido como diérese. Esta falha prosódica instituída pela reforma ortográfica é o maior pesadelo da ortoépia, a arte de pronunciar corretamente as palavras. Sem o trema, perdemos as diretrizes sobre a articulação de certos fonemas. Em outras palavras, não sabemos mais como pronunciar determinados termos que antes nos davam “dicas” de sua pronúncia. Considere as palavras “sequer” e “sequela”. Elas têm a grafia idêntica na sílaba que contém o dígrafo “qu”, mas sons distintos. Veja bem: é totalmente ilógico pronunciar de forma diferente duas sílabas que são escritas exatamente da mesma forma. É essa uma das principais reclamações dos estudantes de línguas estrangeiras, como o inglês: não dá pra saber como se pronuncia uma palavra. É necessário ouvi-la de um nativo ou procurar sua escrita fonética num bom dicionário. Caso contrário, as chances de pronunciá-la corretamente são pequenas. Em nosso caso, a chance é maior (50%), mas ainda insatisfatória. É apenas natural que se espere de uma palavra alguma dica visual quanto à sua pronúncia, de forma que a probabilidade de a dizermos corretamente chegue próxima aos 100% (considerando, é claro, que o leitor esteja a par das regras de sua própria língua).

                Tanto no caso do trema quanto no do “éi” e do “ói”, é muito ingênuo alegar que “sabemos como as palavras são pronunciadas porque as pronunciamos sempre, ou seja, as conhecemos”, pois esse argumento não se aplica justamente às palavras que não conhecemos. Levando em conta que o português tem por volta de 450 mil verbetes e um falante culto (atenção: culto) não tem mais de 25 mil em seu vocabulário, é seguro dizer que a quantidade de palavras que desconhecemos é muito maior. Logo, não espero que alguém pronuncie “linguiça” com G forte pela falta de trema, mas esse é um exemplo comum demais, talvez até óbvio. O problema aparecerá quando nos depararmos com palavras incomuns.

                Para provar que o trema fará falta, listei abaixo palavras que originalmente possuíam trema juntamente a outras que nunca o tiveram. O desafio é muito simples: você é capaz de lê-las corretamente ? Vejamos: adquirir, aguilhão, aquiescer, anguiforme, apazigue, apropinquei, argui, auiqui, averigue, banguê, baldaquino, delinquis, distinguir, equídeo, equidna, equino, equinócio, equitativo, exequível, extinguir, grandiloquente, guelra, Guiana, guizo, inguinal, iniquidade, liquidação, liquidez, loquaz, quelícera, questionadoramente, quilífero, quingentésimo, quinquagésimo, quinquênio, quintessência, quiproquó, quiropraxia, quota, redarguir, retorquir, sanguinolento, sequioso, ubiquidade, ventriloquia.

                Se você ficou em dúvida ao ler uma só palavra que seja (provavelmente, mais de uma), então está comprovado que a falta do trema dificulta ou até impossibilita nossa noção de pronúncia. Se conseguiu ler todas, o que duvido muito, cabe a pergunta: será que todos os lusófonos conseguiriam lê-las como você conseguiu, com fluência e segurança ? A resposta é tão óbvia que se faz desnecessária. Por isso, conserve o trema e trate-o com carinho !

– Base XV: trata dos hífens de locuções, pesadelo de muita gente. O texto oficial diz que as expressões já consagradas como “queima-roupa” e “pé-de-meia” mantêm o hífen, outras não. O problema é justamente saber o que é considerado uma “expressão consagrada” e o que não é. Pensava que “dia-a-dia”, “fim-de-semana”, “pôr-do-sol” e “café-com-leite” fossem, mas aparentemente não são, visto que perderam hífen. Para se ter uma idéia da confusão, o próprio texto do acordo diz que continua a se escrever “cor-de-rosa”, com hífen, mas agora é “cor de vinho”, sem hífen. Quem iria imaginar ? Eu manteria todos os hífens de expressões do tipo.

– Base XVI: trata dos hífens dos prefixos. Penso que esses devessem seguir as regras anteriores. No máximo, que seja uma questão facultativa. Co-piloto ou copiloto, tanto faz. O mesmo para anti-religioso ou antirreligioso, mini-saia ou minissaia e microondas ou micro-ondas. Não vejo grande problema na segunda forma, mas, por costume (muito tempo de uso), acho a primeira mais agradável.

– Base XVII: fala sobre o hífen nas formas enclíticas e mesoclíticas. Mantém as regras anteriores e altera a que diz respeito ao verbo “haver”. Agora é “hei de fazer”, não “hei-de fazer”. Concordo, mesmo porque esse tipo de construção já não tinha hífen aqui no Brasil, onde, de qualquer forma, é raríssima.

– Base XIX: mantém a utilização prévia das maiúsculas e minúsculas. A diferença é que agora nomes de meses, estações do ano e dias são iniciados com minúsculas. Não concordo muito. São palavras que merecem destaque, por isso Janeiro, com letra maiúscula, no início deste texto.

– Base XX: reitera regras de divisão silábica. Estranhamente, a nova grafia não resolve a histórica diferença de divisão que há entre o Brasil e outros países lusófonos quanto a termos como “sábio” e “gênio”. Aqui é sá-bio e lá é sá-bi-o. Aqui é gê-nio, lá é gé-ni-o. Para nós, são paroxítonas terminadas em ditongo crescente, para eles,  proparoxítonas aparentes terminadas em hiato. Se o intuito realmente é aproximar as grafias, esperava-se o estabelecimento de uma regra única para todas as variedade do português, não ?

– Base XXI: garante a pessoas e empresas o direito de manter a grafia original do registro. Não está mencionado aqui, mas vale lembrar que, com relação a pessoas, esse direito só vale em vida. Após a morte, antropônimos são atualizados à grafia vigente. Logo, se você se chama Valdinéia, seu nome passará a ser Valdineia quando morrer.

                Para arrematar, convém fazer dois breves comentários que considero pertinentes. Primeiro: para que professores respeitados como Pasquale Cipro Neto e Cláudio Moreno, escritores renomados como Carlos Heitor Cony, João Ubaldo Ribeiro e Vasco Graça Moura e órgãos lingüísticos tão importantes quanto a Associação Portuguesa de Lingüística demonstrem contrariedade ao acordo, é preciso que ele seja falho de alguma forma. Fosse perfeito, nomes de peso como esses não fariam oposição.

                Segundo: o próprio texto oficial do NAO foi redigido empregando-se a grafia antiga (mais especificamente, a européia, como revelam vários termos ao longo das páginas, entre eles “registo”). Nesta versão virtual disponibilizada pelo dicionário Priberam online, você pode acompanhar nas notas as observações sobre o emprego de termos desatualizados (além de palavras erradas mesmo, incluindo inúmeros erros de digitação): http://www.priberam.pt/docs/AcOrtog90.pdf. Obviamente, espera-se que o texto oficial de uma nova grafia seja escrita nessa tal grafia, a fim de dar o exemplo. A opção que fizeram por escrevê-lo na grafia antiga levanta uma dúvida: será que os que o escreveram cometeram as falhas subconscientemente, talvez com um peso na consciência, ou porque, naturalmente, estão tão acostumados com a grafia utilizada por eles desde sempre que simplesmente esqueceram-se de escrever na nova ? Qualquer que seja o motivo, fica aqui meu singelo protesto a esse acordo ortográfico desnecessário e de propósitos que não concernem, realmente, a boa escrita da língua portuguesa.

 

© 29 de Setembro/3 e 14 de Outubro de 2015, por Klaus die Weizerbüken. Cópia proibida.

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~ por Klaus die Weizerbüken em 14/10/2015.

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