Para verdadeiros adultos, não há filmes de terror

            Foi depois de ver vários filmes de terror famosos, por vezes considerados “clássicos” do cinema mundial, que cheguei à conclusão a que já sabia que chegaria: não existem filmes de terror para quem já cresceu. Das histórias mais malucas ou absurdas às mais ridículas/risíveis, o gênero Terror é um dos mais bem sucedidos da história do cinema. Admiro a criatividade dos roteiristas e dos diretores e até admito que muitos desses filmes são bem feitos no sentido técnico (como um ex-aspirante a cineasta, presto atenção nesses detalhes), mas conseguir botar medo em quem deixou de ser criança — mentalmente falando — é praticamente impossível utilizando-se somente de um filme.

            Antes de falar qualquer coisa sobre o assunto, preciso dissecá-lo em categorias. Terror é mais ou menos como “Rock”: é um termo genérico. Vários tipos de música se encaixam em “Rock”: rock psicodélico, rock ácido, rock espacial, rock progressivo, pop rock, folk rock, blues rock, hard rock, soft rock e por aí vai. Da mesma forma, o gênero Terror tem várias subdivisões. A forma como o divido é a seguinte:

– Filme de tensão psicológica: não é bem terror. É um “terrorzinho”, só pra dar uns sustos. Na verdade, seria, tecnicamente, o que se chama de “suspense” (ou thriller, em inglês). É aquele que você vê e pensa, o tempo todo, “o que vai acontecer ?!”, “o que esse cara vai fazer ?!”, “como isso vai terminar ?!”, fazendo seu coração acelerar. Você se interessa pelo desenrolar dos fatos, entra na história. Freqüentemente, esses filmes têm aquele susto clichê, tipo quando tem alguém atrás da porta ou aparece a imagem de alguém no espelho. Exemplos: O Iluminado, Psicose, Janela Indiscreta, O Silêncio dos Inocentes, O Sexto Sentido, Se7en – Sete Crimes Capitais…

– Filme de violência: é aquele em que uma pessoa morre a cada cinco minutos, geralmente de forma bem impiedosa e sanguinária. Clichês aqui incluem o matador implacável que escapa da cadeira e o palhaço assassino. Eles podem ser sociopatas sádicos, esquizofrênicos psicóticos ou simplesmente maridos cornos com muita raiva, mas o que importa é que eles saem pelas ruas exterminando gente. Exemplos: a série Sexta-Feira 13 (de Jason Vorhee), a série Halloween (de Michael Myers), a série A Hora do Pesadelo (de Freddy Krueger), O Massacre da Serra Elétrica…

– Filme de nojo: é aquele que explora demasiadamente aspectos repulsivos e/ou escatológicos, tipo gente cortando os próprios membros (e sangue jorrando na tela, claro). Ao assisti-los, você sente mais ânsia de vômito que medo. Exemplo: série Jogos Mortais.

– Filme de choque social (ou “polêmica desnecessária”): é o que só lida com temas extremamente polêmicos de formas absurdamente ultrajantes. Nele, você encontra estupro de bebês, necrofilia, coprofagia, experiências desumanas com pessoas vivas etc. e se pergunta quão vil o ser humano pode ser. A intenção, bem lá no fundo, é só chocar a sociedade, mas, como é tudo feito num contexto sombrio, considero um pouco Terror. Vale mencionar que os idealizadores desses filmes (roteiristas, produtores, diretores…) têm de ser irremediavelmente insanos, já que nenhuma pessoa sã da cabeça faria filmes como esses. Exemplos: A Centopéia Humana (ambos, mas principalmente o 2), Terror Sem Limites…

– Filme de fantasia, filme de misticismo ou filme sobrenatural: sem dúvida, o subgênero mais comum da indústria de Terror. Nele, aparecem todas aquelas coisas em que as pessoas gostam de (ou querem) acreditar, mas que, na verdade, não existem (e qualquer pessoa razoavelmente inteligente sabe disso): zumbis, vampiros, bruxas, múmias andantes, seres mitológicos (dragões, unicórnios, duendes, lobisomem), cadáveres reanimados por experiências científicas, fantasmas/espíritos, demônios, possessões, pragas ou maldições liberadas pela leitura de um livro de “magia negra”, invasões de alienígenas malvados e outras bobagens. Julgo que esse tipo de filme seja o mais comum porque o desconhecido sempre dá mais medo; não gostamos de não conhecer, de não saber o que se passa; isso nos assusta. Muitas dessas películas se assemelham bastante a filmes de ficção, mas, obviamente, contêm o elemento tenebroso que os outros não têm. É aqui que se encontra a maioria daqueles filmes considerados clássicos de que falei, os quais já estabeleceram uma fórmula que chegou ao patamar de clichê das telas: a casa assombrada por espíritos malignos, a menininha bonitinha, mas demoníaca, o padre que é chamado para fazer um exorcismo, o grupo satanista que faz rituais, o boneco (ou a boneca) que está possuído por uma “entidade”, o desastre biológico que traz mortos de volta à vida etc. Exemplos: O Exorcista, O Bebê de Rosemary, Poltergeist – O Fenômeno, Atividade Paranormal, Invocação do Mal, Arraste-me para o Inferno, O Segredo da Cabana, A Bruxa de Blair, O Chamado, Brinquedo Assassino, A Noite dos Mortos Vivos, Uma Noite Alucinante: A Morte do Demônio, Madrugada dos Mortos, Re-animator: A Hora dos Mortos Vivos, Drácula, Frankenstein, A Múmia…

– Filme pseudo-realista: são os que exploram os medos reais. São “pseudo” porque partem de uma premissa realista, mas a exageram além da conta para que se atinja o objetivo pretendido (assustar o público). Quase sempre, é algum animal que assusta muita gente (aranha, escorpião, barata, morcego, corvo, tubarão etc.). Exemplos: Tubarão, Aracnofobia, Shakma: A Fúria Assassina, A Mosca…

É claro que a maioria desses filmes é, na verdade, um misto de 2 ou mais subgêneros. É difícil fazer um filme de sucesso que seja SÓ sobre um serial killer. É melhor fazer um sobre um serial killer zumbi que está possuído por Baal e sai por aí decepando a cabeça das vítimas para usá-las em rituais satânicos, numa mistura de violência, nojo e fantasia.

            Agora vamos analisar o gênero Terror do ponto de vista psicológico para entender porque ele só assusta crianças e adultos pueris. Comecemos com o básico: qual é o objetivo de um filme de terror ? Creio que a resposta mais precisa seja “fazer a pessoa que o vê ter medo”. “Medo” é a palavra central aqui. Você já parou pra se perguntar o que é isso ? Medo é um estado de apreensão psicológica que advém de uma reação natural do nosso organismo a estímulos de perigo. “Perigo”, por sua vez, pode ser um monte de coisa, desde um predador perseguindo você pela floresta até o risco de ser morto por um assaltante numa rua escura durante a madrugada, mas uma coisa é fato: o perigo que nos leva ao medo é real, é concreto, muitas vezes físico. Exemplo: uma criança que apanha dos pais não têm medo deles pelo simples estímulo psicológico; ela tem medo de apanhar, de sentir dor. Por isso, nesse sentido literal, nenhum filme consegue nos amedrontar realmente, afinal, nenhum filme oferece qualquer risco a nossa integridade física. Ainda assim, tem gente que treme, enrijece os músculos, tem falta de ar, pesadelos… ou seja, sofre efeitos bem reais em razão de filmes de terror. Isso tudo acontece pelo fator psicológico, que é o que faz uma pessoa “entrar” no filme, entregar-se ao enredo e se deixar levar pelo ritmo da trama. Ela passa a fazer parte do filme, sentindo-se como se sente a personagem que vê na tela, com quem ela se identifica. Em outras palavras, as pessoas se assustam vendo filmes de terror porque os próprios envolvidos nas cenas (as personagens) se assustam — afinal, é como se elas mesmas estivessem lá levando o susto. Isso sem contar com o infantil pensamento de que aquilo que vêem nos filmes pode acontecer com elas na “vida real”. “E se eu estiver tomando banho e aparecer um cara com uma faca ?”, “e se minha filha for possuída por um espírito do mal ?”, “e se uma aranha gigante andar sobre mim durante a noite ?” e outros blá-blá-blás de gente que não cresceu como deveria.

            Vale lembrar também que há estratégias pensadas e executadas especificamente com o objetivo de potencializar o medo que as pessoas sentem vendo esses filmes. Imagine, por exemplo, como seria um filme de terror sem trilha sonora. A música, quer seja aquela lenta, mórbida, sombria, tocada em oitavas graves, quer seja aquela vívida, estridente e desafinada, tocada em oitavas agudas, faz parte do filme tanto quanto os próprios atores. Sem ela, não há sensação de “imersão” na cena, e isso obviamente ameniza a apreensão sentida pelos espectadores. Outra coisa que vale mencionar são as reações das próprias personagens, como gritos, choro e respiração. É fato que o ser humano pode ser emocionalmente influenciado, então não é nada incomum encontrar pessoas que choram só de ver outras pessoas chorando. Ao assistirmos uma cena com um ator que está com falta de ar ou respirando afobadamente, podemos, inconscientemente, começar a respirar da mesma forma. Ao ouvirmo-lo gritar, podemos sentir vontade de gritar também.

            No fim das contas, tudo se resume em deixar-se levar ou não. Quanto mais adulta a pessoa, mais madura. Quanto mais madura, mais realista. Quanto mais realista a pessoa é, menos ela se deixa afetar pelo que vê na tela. Pode ter tripas saindo da barriga de alguém, sangue espirrando pra tudo quanto é lado, espíritos atravessando paredes e possuindo gente, alienígenas destruindo a cidade com lasers, baratas gigantes comendo pessoas nas ruas ou um palhaço maníaco estuprando mulheres num parque; o que importa é lembrar-se da frase-chave para adultos que gostam de Terror: é só um filme.

© Outubro e 18 de Novembro de 2014 e 8/9/15 de Maio de 2015, por Klaus die Weizerbüken. Cópia proibida.

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~ por Klaus die Weizerbüken em 10/06/2015.

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