Quantos livros você leu este ano ?

            Responda rápido: quantos livros você leu nos últimos 12 meses ? Dez, cinco, um ? Nenhum ?? Já é hábito do governo, da mídia e da própria população classificar as pessoas entre “leitoras” e “não-leitoras”, o que, na verdade, não passam de termos eufêmicos para “cultos” e “incultos”. Para eles, a relação é clara e absolutamente incontestável: quem lê vários livros é informado, inteligente, um cidadão exemplar. Quem lê poucos deveria se preocupar e “correr atrás do prejuízo” enquanto ainda há tempo. Quem não lê nenhum está perdido: não sabe o que se passa no mundo, não tem idéia de seus direitos e deveres, não sabe interpretar um texto, tem uma inteligência abaixo da média; é o que se chama popularmente de “ignorante”. Como um sujeito que só leu dois livros nos últimos 7 anos, reservo-me o direito de discordar.

            A primeira falha dessa relação livro/cultura (ou livro/informação, livro/conhecimento, livro/inteligência etc.) é que o livro não é o único meio de se adquirir tudo isso. Um número absurdo de pessoas, eu incluso, prefere adquirir cultura, informação e conhecimento de outras fontes, sendo a internet a principal delas. Assim como tem gente que não passa um fim de semana sem um bom livro ou que não passa uma manhã sem ler as notícias do jornal, eu e todas essas pessoas não conseguimos viver um dia sem ler algo na internet. É óbvio que a questão não é só a leitura, mas o que é lido, e aí só posso falar por mim mesmo. A internet é, ao mesmo tempo, um espaço de conhecimento infinito e um refúgio da ignorância e da babaquice. Além disso, o próprio conhecimento lá adquirido pode ser usado para o bem ou para o mal, e isso só depende de quem lê o que lá está escrito. Pode-se aprender a falar outra língua em pouco meses bem como pode-se aprender a construir uma bomba em algumas semanas. Discernimento e responsabilidade são imprescindíveis por parte do leitor.

            O segundo grande erro é pensar no livro, quer seja físico quer seja virtual (e-book), como única forma de apresentar conhecimento. Outros formatos ou tipos de organização textual podem propagar muito mais conhecimento que os livros. Eu mesmo, quando leio na internet, nunca leio livros, apenas artigos enciclopédicos, artigos científicos, artigos de opinião etc., gêneros textuais bem mais enxutos que os contidos em livros e que, na minha visão, transmitem-me mais conhecimento e de forma bem mais direta e precisa, o que considero uma vantagem.

            O terceiro e, provavelmente, maior erro da questão do livro é tratar de todos de forma indiscriminada, ou seja, não importa quais livros você leu, mas sim quantos. Não é preciso ser muito inteligente para saber que, quando o assunto é conhecimento ou informação, o que mais importa não é quantidade, mas qualidade. Se uma pessoa lê 10 romances populares por ano significa que ela é mais “educada” (no sentido intelectual) que outra que leu 5 livros científicos ou filosóficos ? Será que dá pra comparar quem lê “Jesus: O Maior Psicólogo Que Já Existiu”, “O Monge e o Executivo”, “Comer Rezar Amar”, “Iracema”, “50 Tons de Cinza”, “Jogos Vorazes” e “Percy Jackson e Os Olimpianos” com quem lê “O Mundo como Vontade e Representação”, “Ser e Tempo”, “Assim Falou Zaratustra”, “Princípios Matemáticos da Filosofia Natural”, “Uma Breve História do Tempo”, “O Gene Egoísta” e “A Origem das Espécies” ? Acho que não.

            Relacionado a esse terceiro erro, está um quarto, não menos importante: mesmo que a pessoa tenha lido vários livros considerados “clássicos” da literatura ou livros de grande relevância acadêmico-científica, será que ela os entendeu ? Quando se diz “fulano leu tantos livros”, não se pode deduzir, sem fundamento algum, que ele realmente entendeu tudo que leu. O indivíduo pode ter lido os mais importantes tratados filosóficos do século e não ter entendido uma palavra sequer. Não só isso pode acontecer, como vejo acontecer freqüentemente ao conversar com pessoas e perceber que elas entenderam mal algum conceito exposto em algum livro famoso. É aí que está a diferença entre o alfabetizado, que é o que consegue ler (o brasileiro comum), e o letrado, que é o que consegue ler e entender o que leu (uma minoria no Brasil).

            Um último tópico pertinente aqui é o fato de que a leitura de um livro, por si só, não só não faz de ninguém um gênio como sequer é capaz de fazer o leitor prevenir problemas mentais, como demência e Alzheimer. Na verdade, isso se aplica à leitura de forma geral, não apenas de livros. Isso ocorre porque ler é uma habilidade básica que se tornou comum em nossas vidas e a fazemos de forma automática. Ler é uma atividade passiva, pois não implica “pôr o cérebro para funcionar”, no sentido de fazê-lo racionar. Ler de forma crítica e, principalmente, refletir sobre o que foi lido, entretanto, são maneiras eficientes de afastar problemas na cuca. Isso significa que, quando vemos por aí que ler é um bom exercício para evitar problemas mentais, na verdade quer-se referir à leitura ativa, e não apenas passar os olhos nas manchetes dos jornais ou seguir as instruções de uma receita de bolo, por assim dizer.

            Por tudo isso, creio poder afirmar com segurança que o número médio de livros lidos por um povo num determinado espaço de tempo não pode ser considerado parâmetro de avaliação de sua educação ou sua cidadania, muito menos de sua inteligência e de seu conhecimento de mundo, de forma que um estudo mais detalhado deve ser realizado para atestar tais dados.

© 27/28 de Abril de 2015, por Klaus die Weizerbüken. Cópia proibida.

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~ por Klaus die Weizerbüken em 02/06/2015.

2 Respostas to “Quantos livros você leu este ano ?”

  1. me manda os títulos de livros que você já leu e os seus favoritos, regisfigueira23@gmail.com

    • Olá, Regis. Alguns dos livros que li recentemente foram A Arte de Ter Razão (Schopenhauer), As Origens da Virtude (Matt Ridley), Buracos Negros (Matsas e Vanzella), O Brilho de Mil Sóis (Júnior e Roubicek), O Universo numa Casca de Noz (Hawking) e Manifesto do Partido Comunista (Marx e Engels). Atualmente, estou terminando O Homem que Calculava (Tahan). Indico todos, mas não tenho livros favoritos.

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