Estupro ? Onde ?

            O assunto já é polêmico por si só, mesmo que nenhuma opinião seja proferida sobre ele. A razão é simples: trata-se de um crime, e não um qualquer, mas um que envolve a dignidade de uma pessoa, um que é extremamente constrangedor, principalmente por estar diretamente relacionado a sexo, um assunto que costuma encabular as pessoas. Ultimamente, tem-se falado muito nisso por causa das questões de direitos humanos e da viralização do movimento feminista. Cansado de ouvir bobagens, resolvi expressar minha opinião a respeito.

            Vamos ao primeiro fato: o estupro não vem crescendo. Temos a impressão de que há cada vez mais casos porque hoje as pessoas estão criando coragem para registrar o ocorrido (fazendo um B.O., por exemplo). Aos poucos, as pessoas estão perdendo a vergonha (e o orgulho) de falar sobre isso, então o assunto não é mais “proibido”, pode-se discuti-lo numa conversa de bar com certa naturalidade (ainda que a maioria não o faça). Dizer que há mais estupros agora que em qualquer outra época é desconhecer completamente a história da humanidade. Até não muito tempo, sequer havia leis que enquadrassem o estupro como crime. Na Judéia do ano 10, na Gália do ano 400 ou na América pós-colombiana de 1650, o estupro era rotineiro, por vezes cometido por gente de alto gabarito, mas era sempre abafado. Ninguém ficava sabendo, mas, se ficasse, o máximo que poderia acontecer com o delinqüente seria um linchamento popular. Legalmente, não havia punição para esse ato. Além disso, somos uma sociedade muito mais civilizada em vários outros aspectos. Não somos mais um bando de Homo sapiens se abrigando numa caverna da Etiópia, somos seres pensantes com senso de moral e de justiça que, em geral, conseguem viver harmonicamente e sem cometer crimes (lembre-se: o crime é a exceção, não a regra). Impressiona-me que alguém chegue ao ponto de pensar que há mais estupros hoje, com toda a legislação sobre o tema e as conseqüentes punições aos criminosos, que numa época em que as únicas leis eram “salve-se quem puder” e “mate ou morra”.

            Segundo fato: não há tantos casos de estupro quanto você talvez ache que há. Quantos casos de estupro já ocorreram em seu bairro ? Quantos pessoas que foram comprovadamente estupradas você conhece ? Arrisco-me a dizer que nenhuma, tal como eu (a não ser que você próprio tenha sido uma vítima). E quantas você conhece que dizem ter sido estupradas ? Talvez nenhuma, talvez algumas poucas (exceto se você tiver ligação com algum grupo de apoio a pessoas estupradas ou algo do tipo). Certos assuntos acabam sendo tão comentados que passam a adquirir um status não têm realmente. A melhor comparação que posso fazer é com o terrorismo nos países europeus e, principalmente, nos EUA. Fala-se o tempo todo disso, mas acontecer mesmo… só de vez em quando. Não custa nada prevenir, é claro. É altamente aconselhável checar a bagagem de passageiros de avião para garantir que nenhum deles tem uma bomba-relógio na mala, mas, convenhamos: é raro encontrarem uma pessoa que de fato tenha. Da mesma forma, é sempre bom a pessoa saber técnicas de autodefesa, praticar uma arte marcial, andar com dispositivos de segurança na bolsa (spray de pimenta, arma de choque, canivete etc.), ficar sempre atenta ao sair de casa… O estupro pode ser mais comum que casos de terrorismo, mas não está em toda parte, como nos fazem pensar os noticiários e as militantes feministas (que, aliás, não conseguem falar sobre outra coisa: estupro é o único problema que as mulheres têm no mundo; resolvendo isso, a vida delas estará perfeita). A impressão que nos passam é de que há um estuprador a cada esquina, e isso é algo horrível de se pensar. Trata-se de um bom exemplo da “cultura do medo” (ou, como gosto de chamar, “terror psicológico em massa”), muito estudado por psicólogos e psiquiatras. O que se faz hoje com o estupro (divulgar o tempo todo na TV, nos jornais , nas revistas, em blogues e nas redes sociais) é o mesmo que Bush fez com os estadunidenses: causar pânico para tomar uma atitude drástica (no caso do exemplo, serviu para justificar uma invasão infundada). Graças a ele, hoje quase todo americano sente raiva de qualquer pessoa proveniente do Oriente Médio e do Magrebe. Qual o objetivo de quem propaga o medo do estupro hoje ? Sinceramente, não sei. Só sei que é preciso sensatez para entender que os homens não são os vilões que as feministas de carteirinha estão fazendo parecer que são. Por isso, pessoas, podem continuar saindo na rua com roupas tão curtas que parecem biquíni: a probabilidade de vocês serem raptadas e estupradas será a mesma. Não vamos deixar de viver em virtude do medo. Você não deixa de ir ao supermercado porque pode ser assaltado ao sair de casa ou bater o carro no caminho. Você simplesmente supera essas possibilidades (sim, elas existem) e vai. Faça o mesmo com relação ao estupro e comece a viver.

            Terceiro fato: as pessoas podem mentir sobre o estupro. Fiquei chocado ao ver várias feministas defendendo a idéia de que não há motivos para mulheres, as principais vítimas de estupro, mentirem sobre o crime. “Por que fariam isso ??”, indagavam indignadas, como se não fosse direito de todos nós conceder aos outros o benefício da dúvida, tanto positiva quanto negativamente. Espanta-me que essas pessoas não saibam quão manipulador o ser humano é. Chego a desconfiar que essa ingenuidade seja proposital. A nossa raça mente, simples assim. Nem precisa ter motivo, mas até pode ter: uma namorada que não quer admitir uma traição, uma esposa que quer se vingar do marido mulherengo, uma moça safada que quer ferrar um cara com quem ela dormiu na noite anterior, uma doente mental totalmente desequilibrada, uma mitomaníaca que mente por necessidade, uma coroinha que odeia ir à igreja aos domingos e resolveu acabar com a vida do pároco… É o mesmo que mentir sobre um roubo para receber uma grana da seguradora. Qualquer um está sujeito a fazer isso. Algo que me preocupa bastante com relação ao estupro, especificamente, é a parcialidade da Justiça. Quando uma mulher diz que foi estuprada por um homem, esse homem já foi sentenciado antes de qualquer apuração dos fatos. Não precisa haver julgamento; deduz-se que a mulher deva estar falando a verdade, afinal, por que se sujeitaria a essa exposição, a essa humilhação pública, a esse constrangimento que pode marcar o resto de sua vida ? Como o estupro é um dos poucos crimes que não podem ser provados (exceto nos raros casos gravados), o que se tem em jogo é, na prática, a palavra de uma pessoa contra a de outra. Se a balança está desequilibrada a favor de alguém, basta uma denúncia falsa e um ser humano inocente é trancado numa cela por sabe-se lá quanto tempo. Só parei para pensar como isso deve ser terrível depois de uma notícia divulgada no ano passado sobre uma mulher que resolveu admitir que um homem não a tinha estuprado. O único problema é que a consciência dela levou quase 30 anos para ficar pesada. Durante todo esse tempo, o sujeito esteve na cadeia. O que se passa pela cabeça de uma pessoa que foi encarcerada por esse período injustamente ? Não quero nem imaginar.

            Três conselhos para as feministas: primeiro, parem de tirar fotos com cartazes do tipo “Eu não mereço ser estuprada”. É óbvio que nem vocês nem ninguém merece. Sei que é pra chamar a atenção da sociedade para esse problema, mas as pessoas de bem já sabem disso e não vão estuprar ninguém. Os infratores da lei, por outro lado, também sabem disso, mas não dão a mínima: eles vão estuprar quem quiserem porque é isso que fazem. Basta que os punamos por isso. Será tão difícil ? Além disso, não merecemos apenas não ser estuprados, mas também não ser logrados, furtados, roubados, espancados, seqüestrados, torturados e mortos. Não merecemos nenhum tipo de crime. Segundo, parem de falar só sobre estupro. As mulheres, assim como os homens, sofrem por diversas causas. Por que essa insistência com o estupro ? Vamos diversificar e falar da exportação de prostitutas ou do trabalho escravo. Esses problemas são tão importantes quanto o estupro, de forma que este último não merece atenção especial da parte de ninguém. Terceiro, parem de defender apenas as mulheres. Se o Feminismo prega que as pessoas são iguais e devem ser tratadas como tais (o que, na verdade, é a definição do Igualitarismo), por que as feministas não falam dos estupros sofridos pelos homens ? Para variar, falem um pouco sobre os presidiários que são feitos de escravos sexuais; eles também são vítimas de estupro, mas ninguém faz passeata por eles. Direitos iguais significam direitos iguais, sem exceção.

            Para finalizar, um conselho direto a você que me lê: chega de pânico. Precaver-se é sensato, mas viver alimentando o medo é tolice. Vamos dar ao estupro o tratamento que ele merece, que é exatamente o mesmo que qualquer outra violação da lei, seja ela contra mulheres ou contra homens. Chega de estupro e chega de hype sobre ele.

© 13 de Fevereiro de 2015, por Klaus die Weizerbüken (a cópia não-autorizada deste texto pode resultar em pena de morte).

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~ por Klaus die Weizerbüken em 14/02/2015.

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