1989

            1989 foi um ano triste. Só agora que estamos celebrando o “25º aniversário de 1989” é que percebi quão triste ele foi. Nosso país ainda estava sendo governado pelo picareta imortal (nos dois sentidos) que, anos mais tarde, viria a ser repugnado pela maioria absoluta da população. O povo tinha passado 20 anos vivendo sob um regime ditatorial e, quando, finalmente, livrou-se dos presidentes militares com a indicação de um civil para o cargo da presidência, teve a decepção de vê-lo morrer a alguns dias da posse ? Pois é. Aí surgiram as especulações e teorias conspiratórias, que até fazem certo sentido, mas o fato é que quem assumiu em seu lugar foi o dito cujo já citado. Esse foi um dos motivos pelos quais os anos seguintes foram tristes, principalmente 1989. De fato, vários anos tiveram como “saldo final” a tristeza. Na verdade, sem muito esforço, conseguiria achar um “lado negro” em cada grupo de 365 dias (às vezes 365, às vezes 366 — um capricho do universo). Nove anos antes, Lennon havia sido brutalmente assassinado por um “fã” que intentava ficar mais famoso que seu ídolo. 21 anos depois desse homicídio imperdoável, perdemos Harrison para o odiado câncer. 1914 e 1939 ficaram marcados na história como dois dos anos mais soturnos, assim como 2003 marcou o início da primeira grande guerra do século 21, que viria a durar quase uma década. 1929 mais pareceu um pesadelo que, apesar das origens meramente econômicas, rendeu conseqüências em todos os âmbitos. 1962, então, nem se fala: o mundo prendeu o fôlego e só voltou a respirar depois dos temidos 13 dias da mais alta tensão global. 1989, porém, foi diferente; foi simples e puramente triste.

            Don McLean, em 1971, referiu-se a 1959 como “o ano em que a música morreu”; tomo a liberdade de ir além e dizer que 1989 foi o ano em que a arte morreu no Brasil. As duas vertentes artísticas mais populares e queridas ficaram irremediavelmente desfalcadas. A mãe Poesia e a mãe Música perderam os maiores expoentes advindos de seus ventres: os danados Paulo Leminski e Raul Seixas combinaram não só de morrer no mesmo ano e com a mesma idade, como pela mesma causa (cirrose hepática etílica e pancreatite aguda fulminante — maldito seja o álcool !). Parece até que realmente tinham algum tipo de acordo, um trato feito entre gênios do mais alto calibre. Fico imaginando o que passou pela cabeça de Raulzito durante os menos de 60 dias que transcorreram entre a morte do colega artista e a dele. Vai ver que se afundou ainda mais na bebida de propósito; de que adiantava viver depois dessa grande perda ? Como seria viver num mundo sem os haikais de três linhas rimadas do caboclo polaco ?

            De certa forma, alegra-me o fato de só ter descido nessa estação chamada “Vida” em 1992, 3 anos quase que exatos à frente do 21 de Agosto que pôs fim ao segundo membro da dupla do barulho que se despediu no famigerado oito-nove. Teria sido um baque grande demais se eu tivesse vivido a situação. Ainda que a ênfase aqui seja esse ano sombrio, todos os outros posteriores tiveram menos lustre, simplesmente porque nunca mais tivemos bigodes leminskianos e barbas seixísticas. Nunca mais as palmeiras estremeceram e receberam palmas nem pessoas tomaram banho de chapéu e discutiram Carlos Gardel. Nunca mais um erro foi cometido duas vezes, tampouco três, quatro, cinco, seis, pra que ele aprendesse que só ele tem vez. Também nunca mais ouvi dizer que, se não fosse isso, era menos, e que, se não fosse tanto, era quase. Pior: ninguém mais se arriscou a ser o início, o fim e o meio. Agora… esses anos todos de lá pra cá, sim, eu tive o desprazer de viver. Anos em que o Brasil continuou sendo alugado por estrangeiros que gostam da nossa vista pro mar e da Amazônia como jardim do quintal, anos em que todos os jornais que lia continuavam a dizer que a gente já era, em que as únicas sociedades alternativas formadas foram as gangues do crime organizado e as quadrilhas de políticos desonestos (redundante ?).

            Neste Brasil menos artístico e menos criativamente insano, encontro-me eu, que, nos finais de tarde de Sexta, ao escutar “Meu Amigo Pedro” e ler “Desencontrários”, declamo a mim mesmo com a garganta pesada, num breve solilóquio: “como o mundo fica vazio sem o maluco beleza e o samurai malandro !”.

© 3/4/5/8 de Setembro/15 de Outubro de 2013/23 de Setembro de 2014, por Klaus die Weizerbüken (a cópia não-autorizada deste texto pode resultar em pena de morte).

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~ por Klaus die Weizerbüken em 08/12/2014.

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