Homossexualismo ou homossexualidade ?

                Recentemente, ouvi duas pessoas se posicionarem contra o termo “homossexualismo”. “É homossexualidade. Não é nem doença nem ideologia para ser chamada de ‘ismo'”. Não quero entrar em questões subjetivas, então não tratarei do homossexualismo em si (ainda que ele seja mais objetivo do que se pensa, visto pela lente da biologia — tema para um outro artigo), mas do termo que o designa. É compreensível que homossexuais e héteros defensores dos direitos homossexuais queiram associar o termo que nomeia a causa a igualdade, felicidade, bondade, generosidade, solidariedade, caridade e lealdade, e não a egoísmo, cinismo, nepotismo, extremismo, fundamentalismo e fanatismo (se bem que essas pessoas convenientemente se esquecem de altruísmo e maldade).. Uma análise mais profunda, contudo, revela que “ismo”, um sufixo grego, é aplicado de forma bastante diversa: idéias/ideologias (marxismo, leninismo, stalinismo, trotskismo, maoísmo, confucionismo, libertarianismo, materialismo, nacionalismo, nazismo, fascismo), sistemas sócio-político-econômicos (comunismo, socialismo, capitalismo, mercantilismo), posições ou preferências políticas (conservadorismo, militarismo, esquerdismo, peemedebismo, petismo), filosofias religiosas ou religiões (budismo, taoísmo, xintoísmo, paganismo, judaísmo, islamismo, cristianismo, espiritismo, mormonismo, catolicismo, luteranismo, calvinismo, messianismo), posições, doutrinas ou correntes filosóficas ou científicas (kantismo, hegelianismo, niilismo, existencialismo, reducionismo, positivismo, empirismo, cientificismo, racionalismo, falsificacionismo, ceticismo, agnosticismo, ateísmo), movimentos artísticos/literários (impressionismo, expressionismo, cubismo, vanguardismo, arcadismo, romantismo, naturalismo, realismo, modernismo), movimentos intelectuais, sociais ou religiosos (iluminismo, sebastianismo, protestantismo, puritanismo, ocultismo), fenômenos ou teorias lingüísticas (monolingüismo, bilingüismo, galicismo, brasileirismo, estruturalismo, gerativismo, sociointeracionismo, construtivismo, comunicativismo, funcionalismo), atividades de lazer ou práticas esportivas (ciclismo, iatismo, aeromodelismo, automobilismo, alpinismo, halterofilismo, atletismo), estados/qualidades (civismo, heroísmo), profissões/carreiras (jornalismo) e, por fim, condições médicas, mas não necessariamente doenças (autismo, alcoolismo, priapismo, reumatismo, daltonismo… confesso que foi difícil pensar em uma doença com ISMO, apesar do que alegam os defensores de “homossexualidade”). Da mesma forma, temos inúmeros termos médicos (psicológicos ou psiquiátricos) que não terminam em ISMO, como esquizofrenia, embotamento, psicose e uma infinidade de transtornos e fobias. Logo, o argumento de que “homossexualismo” está “errado” por se referir à homossexualidade como doença cai por terra se analisarmos somente o termo em si, do ponto de vista lingüístico. Se a discussão se baseasse somente nisso, eu nem precisaria continuar escrevendo: o debate estaria vencido. Entretanto, há mais um caroço nesse angu: tenho plena consciência de que muitos que rechaçam o termo “homossexualismo” não o fazem alegando que ISMO é sufixo de doença, mas sim fazendo referência ao fato de que a homossexualidade per se já foi considerada patologia.

                Realmente, o termo “homossexualismo” já foi usado para descrever um suposto distúrbio mental. Até 1967, “homossexualismo” estava na lista da Associação Americana de Psiquiatria descrito como tal. Entre 1968 e 1972, foi considerado “apenas” um transtorno sexual, um desvio ao que era considerado normal (homem + mulher). Só em 1973 a associação tirou “homossexualismo” de seu catálogo de distúrbios. O mesmo aconteceu em vários outros países, inclusive no Brasil, que declarou ser a sexualidade algo opcional e de caráter individual em 1985. A China, por outro lado, só fez isso em 2001. Em âmbito internacional, a Organização Mundial da Saúde só retirou o homossexualismo da lista de patologias em 1990 (assustadoramente recente, não acha ?). Hoje em dia, como bem sabemos, a homossexualidade já é aceita como algo “normal” (coloco aspas porque presumimos que as pessoas nascerão heterossexuais, já que o contrário disso significaria o fim de nossa espécie, mas, ao mesmo tempo, o comportamento homossexual não é antinatural, como alegam os conservadores — também um tema para um artigo futuro, não este).

                O que advogo aqui é que o que se pensa a respeito de “homossexualismo” é nada mais que uma discriminação advinda de um estigma. Depois de tantos anos sendo usado para nomear o que se considerava um distúrbio, o termo “homossexualismo” ficou manchado, então se pode compreender por que tanta gente tenta evitá-lo. Entendo que se prefira um termo a outro, mas acho mais honesto que se admita o real porquê, e não que se invente uma desculpa ou que se adote a que mais usam por aí (a do ISMO). Por isso, fiz a investigação sociolingüística que deu origem a este artigo. Acompanhe…

                Entre os 7 dicionários em que pesquisei (Aurélio, Michaelis, Priberam, Aulete, Ruth Rocha, Infopédia e Wikcionário), 6 definem “homossexualismo” ou da mesma forma ou de forma muito semelhante a “homossexualidade”, mencionando embaixo ou ao lado que são sinônimos. Nenhum deles registra conotação pejorativa, tampouco menciona qualquer coisa a respeito da antiga acepção médica do termo. Todos mencionam a palavra “prática” em suas definições (“prática homossexual”, “prática de ato sexual entre seres do mesmo sexo” etc.), o que me leva a concluir que “homossexualismo” tem, pelo menos, um significado a mais, e talvez mais marcado, que “homossexualidade”, que é o do ato físico da cópula, da consumação do coito, além do próprio significado que é sinônimo a “homossexualidade” (o comportamento ou característica homossexual). Vale ressaltar que o termo também existe em outras línguas, como o inglês homosexualism e o francês homosexualisme, ainda que sejam encarados da mesma forma como em português, existindo a preferência por homosexuality e homosexualité. Aos que proclamam “não se diz ‘heterossexualismo’, então não se deve dizer ‘homossexualismo'”, saibam que ele também está nos dicionários como sinônimo de “heterossexualidade”, então não estão “pegando no pé” só dos homossexuais.

                A idéia de que a palavra “homossexualismo” é negativa está na cabeça de quem fala isso. As palavras não são nem negativas nem positivas, são neutras. A própria palavra “negativo” não é negativa por natureza. Já parou para pensar que ela poderia ter o significado oposto ? Poderíamos dizer “positivo” para algo ruim e “negativo” para algo bom, bastaria que houvesse um consenso sobre isso. É o que se chama de arbitrariedade lingüística: convencionou-se que “negativo” seria um termo para designar algo ruim e “positivo” para designar algo bom, sem seguir qualquer lógica ou apresentar um bom motivo para isso. Apenas é assim e ponto final. Quanto a “homossexualismo”, não há consenso, já que há pessoas que não concordam com a recriminação da palavra e que os 7 dicionários em que a pesquisei não a definem como termo de cariz negativo. Portanto, é preciso que se entenda que “homossexualismo” só continuará sendo vista de forma negativa enquanto quem a usa ou a evita pensar que ela é assim. Será seu uso ou sua evitação que determinará seu caráter. Há que se pensar se é sadio continuar propagando a idéia negativa que alguns insistem em dizer que há por trás do vocábulo. Outra consideração que se deve fazer, como já ouvi dizerem, é que o termo “homossexualismo” é, muitas vezes, utilizado por homofóbicos (até já vi gente culpando a Igreja Católica pela “invenção”), mas também o é o termo “homossexualidade”, bem como muita gente usa “homossexualismo” inocentemente, sem qualquer má intenção. Por isso, proponho que culpemos os reais responsáveis pela “conotação negativa” de “homossexualismo”: quem evita o termo e quem o ouve ou o lê e acha que é um absurdo ou se sente desrespeitado. Lembre-se: a palavra em si não tem culpa de nada.

                É importante não confundir duas coisas: a correção de uma palavra e a opinião que você tem sobre ela por conta de motivos sociais, culturais, históricos, políticos, econômicos ou de interesses pessoais mesmo. Assim como no caso de quem usa o termo “presidenta”, quem nega “homossexualismo” geralmente leva a conversa pro lado pessoal, justificando-se de forma apaixonada, envolvida, em nome de uma causa. É preciso reconhecer que a interpretação do termo “homossexualismo” como depreciativo vem, na maioria absoluta das vezes, de quem É homossexual. Isso me leva a crer que haja uma relação entre a negação de “homossexualismo” e o complexo de inferioridade histórico a que se associam todas as minorias (não tiro a razão delas, mas acho que já é tempo de crescer; ser vítima é uma coisa, fazer-se de vítima é outra). Insistir em alegar que “homossexualismo” é errado por que designava um distúrbio é insistir em evocar uma questão histórica que já foi superada. Trazer à tona a conotação médica de “homossexualismo” é uma desonestidade semântica no sentido de que nós já evoluímos nesse âmbito. É o mesmo que alguém se recusar a visitar a Alemanha ou ter qualquer tipo de contato com alemães porque eles são “nazistas”, mataram sabe-se lá quantos milhões de judeus, ciganos, eslavos, negros, homossexuais e não-arianos em geral há mais de 70 anos. Sinceramente, é preocupante saber que alguns ainda não atingiram a maturidade com relação a esses assuntos. São águas passadas, não há que se regredir cutucando essa ferida. Não devemos nos esquecer nunca de que o homossexualismo já foi considerado patologia, pois o fato em si já prova que houve progresso se compararmos com seu status nos dias hodiernos, mas temos de mostrar que conseguimos acompanhar esse progresso sociocultural adaptando-nos sociolingüisticamente. E que maneira melhor de fazermos isso que utilizarmos “homossexualismo” de cabeça erguida, sem vergonha de um passado sombrio que ainda assombra muita gente sem motivo ?

                Diferentemente de “presidenta”, que constitui um desvio ao processo de formação de palavras da língua portuguesa, “homossexualismo” é morfologicamente aceitável, então a palavra não só existe como pode ser utilizada. Apesar de eu mesmo geralmente não utilizar o termo, defendo sua correção e proponho um amadurecimento no sentido sociolingüístico. Se você não gosta da palavra, terá de recorrer à desculpa sócio-histórico-psico-médica, não à gramática. Apenas tenha em mente que isso será um passo para trás na luta contra a discriminação, algo que os próprios homossexuais tanto se esforçam para erradicar.

 

© 2/14/15 de Outubro de 2014, por Klaus die Weizerbüken (a cópia não-autorizada deste texto pode resultar em pena de morte).

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~ por Klaus die Weizerbüken em 01/11/2014.

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