Brasil, o próximo Catar

            Ah, Catar ! O país dos sonhos: crianças brincam inofensivamente nas ruas bem iluminadas e seguras, jovens com educação completa cursam seus cursos de escolha nas bem estruturadas universidades federais, pais com empregos dignos e rentáveis não se preocupam com as poucas contas que têm de pagar no final do mês. O sistema de saúde é gratuito e funciona. O transporte público também. Todos são iguais perante a lei: brancos e negros, homens e mulheres. O sistema judiciário é exatamente como deveria ser: justo. As prisões estão praticamente vazias. As liberdades individuais são respeitadas. Não há religiosos extremistas. Atentado terrorista ? Ninguém no Catar sabe o que é isso. O país é pacífico e todos se orgulham de nascer e morar ali. Batem no peito e dizem “sou catari !”.

            Pois é, só em sonhos mesmo. A realidade é tão diferente que chega a assustar. Não preciso nem me delongar: basta imaginar o contrário de tudo que descrevi no parágrafo anterior. Não digo que não haja nenhum aspecto bom a ser mencionado; há, sim. A economia é fortíssima. Está baseada, há décadas, na incansável exploração de petróleo e de gás natural (sua reserva de gás é a terceira maior do mundo). Você pode achar que é só mais um daqueles países ricos membros da OPEP, mas o Catar está um pouco além: é o país mais rico do mundo no quesito ‘Paridade do Poder de Compra’ segundo a revista Forbes, o FMI e o CIA World Factbook. Está à frente de países europeus de altíssimo nível, como Luxemburgo (2º), Noruega (4º), Suíça (9º) e Países Baixos (10º). Talvez mais impressionante que isso, o Catar ganha até do país mais rico do mundo (em termos de PIB), os EUA. Naquela terra árida onde o sol nunca se esquece de bater, o poder de compra per capita é a bagatela de 102.943,32 dólares internacionais. Só para comparar, a terra do tio Sam está em 7º lugar, com 48.386,69. Bem longe, heim ? Pois é… Ah, o Brasil ? Está bem ! Bem mal, com um 76º lugar: 11.769,41 dólares (todas as estimativas de 2011).

            Você pode achar esses dados estranhos, já que o Brasil é a 6ª maior economia do mundo em valores absolutos de PIB, enquanto o Catar é a 51ª. A explicação é fácil: o PIB do Catar é aproximadamente 184,5 bilhões de dólares, mas a população é apenas 1,9 milhão. Já no Brasil, o PIB é 2,6 trilhões, mas a população é 201 milhões. Faça simples operações de divisão e você entenderá por que toda essa grana brazuca parece evaporar, ao passo que o dindim catari dá e sobra para a população. Espere… para a população ? Onde é que estou com a cabeça ? A população do Catar está miserável e abandonada. Quem está com o bolso (e talvez a cueca) cheia de dólares são os rarefeitos sheiks do petróleo ! Esse cenário mesclado de pobreza nas ruas e luxo nos palácios não me parece próprio de um país considerado evoluído, dotado de um IDH de nível “desenvolvimento humano muito alto”. Exatamente ! Escolhi o Catar justamente por ser o país árabe extrator e exportador de bens primários com a melhor colocação no Índice de Desenvolvimento Humano: um belo 0,834, pertinho de nações como Reino Unido, Luxemburgo, Itália, Liechtenstein, Espanha, Finlândia e França. Posso não ser economista nem analista social, mas suspeito que haja algo errado aí…

            Preocupo-me. Preocupo-me porque vejo meu país trilhando o mesmo caminho que o glorioso Catar, terra das “oportunidades” e da “vida boa”. O Brasil já está entre os países classificados como “desenvolvimento humano alto”. A colocação pode não ser boa (85º), mas a categoria em que estamos faria qualquer brasileiro distraído abrir um largo sorriso achando que realmente somos uma nação evoluída. Digo apenas “distraído” porque comparar os trilhões de dólares do PIB com o salário mínimo não é muito difícil, mas exige atenção. Da mesma forma, não é preciso ter uma visão excelente para notar os carrões importados paulistanos que passam por semáforos onde mendigos imploram por uma esmolinha. Basta ser distraído para não perceber esses detalhes que confirmam que o Brasil tem tudo para ser o próximo Catar: uma terra de aparências, rica por fora e pobre por dentro.

            Não se engane: não sou contra uma economia avançada. Pelo contrário, acho que temos de seguir os bons exemplos. Todos os países realmente evoluídos têm economias sólidas (mas nem todos que têm economias sólidas são realmente evoluídos). Se quisermos ser evoluídos algum dia, certamente teremos de construir uma boa economia. Na verdade, já fizemos um progresso considerável nessa área. Só estou fazendo um alerta para que não privilegiem o que não é essencial. O Brasil é a 6ª maior economia do mundo ? Viva ! Esplêndido ! Mas onde está esse dinheiro que eu nunca vi ? Aplicado na educação ele não foi, como nos provam as escolas públicas com tetos desabando, carteiras quebradas e professores mal pagos (além da constatação óbvia de que o povo continua ignorante). Dando uma rápida olhada no sistema carcerário, com suas penitenciárias superlotadas e falhas, deduzo que para lá o dinheiro também não tenha ido. Segurança, talvez ? Pessoas andam nas ruas, em pleno dia, com medo de serem assaltadas ou de serem atingidas por uma bala perdida. Hum… Acho que não. Bem, acho que a dedução mais sensata seria a de que esse dinheiro todo está nas mãos dos empresários que enriquecem à custa dos outros e dos políticos que embolsam dinheiro do erário. Enquanto isso, o povo mesmo, o povão, está catando moedas do chão e dando aleluia por trocados encontrados no bolso de trás da calça. Vivemos num mundo em que as 85 pessoas mais ricas têm uma fortuna equivalente à das 3,5 bilhões mais pobres, o que significa que menos de 1% do planeta acumula mais de 40% de toda sua riqueza, então creio que nossa situação aqui não seja muito diferente da média mundial.

            Quando penso nessa situação toda pela qual passamos, temo que cheguemos ao nível dos EUA. Mais ainda que o Catar, os EUA passam uma ótima imagem a todos por seus níveis econômicos espetaculares. É exatamente por isso que seu IDH aparenta ser tão alto: riqueza. Infelizmente, os critérios de medição de IDH ainda relevam muito o aspecto econômico do país. Assim como o Catar, os EUA aparentam, mas não são. Pegue o Brasil, dê um polimento e coloque alguns enfeites e umas cédulas na carteira: pronto, aí estão os States. Enquanto esbanjam riquezas, seus índices de educação, segurança pública, saúde e corrupção são preocupantes. Sem dúvida, antes morar lá do que aqui, mas os EUA estão longe de ser o paraíso na Terra como quase todo mundo pensa.

            Em Economia, já se sabe há muito tempo que crescimento e desenvolvimento são coisas distintas. Os dois são possíveis tanto concomitantes quanto separados. Logo, é perfeitamente possível um país crescer, mas não se desenvolver, e é exatamente o que acontece em todos esses países milionários que não têm condições de vida adequadas. O motivo de eu escrever este texto é justamente o fato de eu perceber que isso está começando a acontecer aqui também. Analisando a história das nações pela lente da Economia, percebe-se que a prioridade dos países subdesenvolvidos sempre foi o dinheiro. A questão financeira é tida como essencial para tais países por um simples motivo: eles são pobres. A ilusão que se cria (e que se vende para o povo) é que um país subdesenvolvido pode passar a ser desenvolvido por meio da economia, e não é preciso ser muito inteligente para perceber que só isso não é o suficiente. Um país não é subdesenvolvido apenas porque é pobre. Existem muitos outros fatores que devem ser considerados, entre os quais educação, cultura, sistema político e religião. É imprescindível que o governo tome ações amplas para abarcar todos esses aspectos, não apenas aquilo que aparece. É inegável que construir escolas chama a atenção e, conseqüentemente, angaria votos; difícil é chamar a atenção e conquistar a população melhorando a educação, de fato, ao formar melhor os professores e oferecer oportunidade iguais aos alunos. É inegável que exibir índices de crescimento econômico faz o povo achar que o país está progredindo; difícil é progredir de verdade exportando banana, café, laranja, soja, cana, açúcar, carne e uns barris de petróleo, como fazemos aqui. No dia em que deixarmos de ser uma nação de economia de base agrícola e começarmos a exportar tecnologia de ponta, poderemos pensar em nos considerar desenvolvidos, mas, para que isso aconteça, muitas coisas terão de mudar por aqui, a começar pela cabeça das pessoas. Enquanto houver gente formada e inteligente achando que uma economia forte é o remédio para todas as enfermidades, não sairemos do lugar.

            Em poucos anos, talvez 5 ou 10, o Brasil certamente passará a Alemanha e a França e chegará ao 4º maior PIB. Se duvidar, dentro de mais uma década passaremos até o Japão e seremos, “orgulhosamente”, a 3ª maior economia do mundo, atrás apenas dos EUA e da China. De fato, a economia do Brasil está crescendo. E já que estamos falando de economia, eu pergunto: a que custo ?

 

© 16/17 de Abril/9 de Junho de 2014, por Klaus die Weizerbüken (a cópia não-autorizada deste texto pode resultar em pena de morte).

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~ por Klaus die Weizerbüken em 10/06/2014.

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