Em tempo de copa, pimenta é refresco

            Não verei a copa do mundo realizada no Brasil em 2014. Pra começo de conversa, nem estarei por estas bandas, mas isso não seria problema: poderia ver na televisão em qualquer lugar do globo em que estivesse, mas não verei. E não é só isso: nada de álbum de figurinhas, nada de camiseta da seleção, nada de bola oficial, nada de caxirola. Na verdade, não comprarei nenhum produto que tenha “Copa do Mundo FIFA 2014” estampado nele. A copa não existirá para mim. É claro que, no final, ficarei sabendo quem venceu, pois não há como viver neste planeta e não saber do vencedor da copa do mundo, a menos que se viva em uma caverna remota nos confins dos Urais, longe de qualquer amontoado de Homo sapiens que se possa chamar de “civilização”.

            Não estou nem um pouco iludido: sei que este texto não mudará a cabeça de muita gente. Quem tiver vontade de participar dessa copa fá-lo-á de qualquer maneira. O que me importa é que estou deixando bem claro que não tenho qualquer participação nessa gigantesca demonstração de desrespeito para com meu povo, o brasileiro. Lavo minhas mãos. Por outro lado, não pense que estou sozinho nesta: pelo que ando vendo e ouvindo por aí, não haverá copa para um monte de gente. Podemos não chegar à maioria da população, mas creio que seremos uma parcela razoável a expressar sua indignação com um governo que faz estádios bilionários (com um dinheiro que nem tem, aumentando ainda mais nossa dívida), mas “se esquece” de fazer hospitais, escolas, centros de reabilitação, penitenciárias, centros comunitários, clubes populares, áreas de lazer públicas… sem falar em reformar todos esses que já existem e estão em situação precária por falta de investimento. Afinal, como já disse o filósofo Ronaldo Fenômeno, “não se faz copa com hospital”. Está certíssimo, Ronaldo ! Copa se faz com roubalheira, com desonestidade, com meios bem malandros de ludibriar o povão, que assiste a tudo e, além de não dizer nada, ainda bate palma, faz reverência e pede bis !

            Pode ser paranóia minha, mas realmente acredito que o governo esteja repetindo a tática bem sucedida empregada em 1970: utilizar-se do futebol como distração para a massa num momento de instabilidade política. Quando o Brasil ganhou a copa de 70, nosso povo ficou anestesiado por praticamente um ano inteiro. Esqueceu-se quase completamente de que vivia sob um regime militar, uma ditadura durante a qual pessoas simplesmente “desapareciam”, um fenômeno “sobrenatural” até hoje inexplicado (buuuu…). A grande diferença é que, desta vez, o governo preparou isso. Em 1970, o Brasil realmente tinha um bom time e, comprada ou não, a vitória foi merecida e esperada, mas poderia não ter ocorrido. Agora, o governo deliberadamente planejou isso, já que candidatou o país para sediar o evento. Quem sabe até não pagaram uma propinazinha para ganhar ? Especulações à parte, o fato é que assistir a essa copa será ignorar os problemas do país, alimentar a impunidade, render-se ao domínio estatal e admitir escancaradamente uma hipocrisia que já se tornou de praxe em nosso país: a hipocrisia de quem fala mal do Capitalismo e veste Nike e GAP. A hipocrisia de quem se diz militante de esquerda e lancha no McDonald’s (tomando Coca-Cola, é claro). A hipocrisia dos que se acham intelectuais, mas freqüentam botecos para discutir Big Brother. A hipocrisia dos professores que reclamam da educação dia e noite, mas, nas horas vagas, sentam suas vastas bundas no sofá da sala para ver a novela das 10. Se você, caro brasileiro, fala mal do país em qualquer sentido e tem o desejo de vê-lo melhorar, não passará de um grande hipócrita ao ver os jogos da copa. Como o brasileiro não costuma ficar com a consciência pesada quando faz algo errado, creio que esses hipócritas não se importarão com isso. Não, ao ver a copa você não estará matando ninguém, tampouco roubando ou enganando. Mas estará alimentando quem faz tudo isso. Você não estará fazendo nada de errado diretamente, mas, indiretamente, estará dando corda para que todos esses atos ilícitos continuem acontecendo (a menos que você viva no mundo da fantasia e negue que eles aconteçam; se for esse o caso, consulte um psiquiatra).

            Vivemos num país que valoriza mais as telenovelas que as novelas em si, os romances, os livros. De forma geral, uma nação que mais se importa com TV que com arte. Não é de se surpreender que escolas e até universidades parem de funcionar nos dias dos jogos da seleção brasileira. Mas é claro que não: futebol é mais importante que educação, então é perfeitamente “justificável” deixar de estudar (e de trabalhar também) para ver 20 caras correndo atrás de uma bola (e outros 2 parados feito postes). Torço para que isso não se estenda ao handebol, vôlei, basquete e outros esportes. Se isso acontecer, o país estagnará durante todos os dias das olimpíadas também. Já pensou que maravilha ?

            Jornalistas, comentaristas e analistas políticos já deram sua opinião: se o Brasil repetir o vexame de 1950, Dilma não ganha as eleições. As pessoas realmente não percebem o que está por trás dessa copa: mais do que esporte, mais do que diversão fugaz ou entretenimento barato (não se você for ver o jogo no estádio), ela se trata de um ato político. O povo, abalado com a derrota, irá para as urnas descontente. E ai de nossa eleganta presidenta, que não vai ficar nem um pouco contenta ! Se bem que, “espertos” como nossos governantes são, eles não vão deixar a situação chegar a esse nível. Já devem ter alguma carta na manga. Ou você acha que o PT deixaria a brincadeira acabar assim, tão rápido ? Não, não. Ainda vão brincar de “donos do Brasil” por algum tempo…

            Se a religião é o ópio do povo, como disse Marx em 1844 (bebendo da fonte de Feuerbach e outros), o futebol é o circo. Agora só falta mesmo o pão, que ainda insiste em se ausentar da mesa de muitos brasileiros honestos e trabalhadores em pleno século 21. Dilma, me dá um trocado ?

© 31 Maio/1 e 3 de Junho de 2014, por Klaus die Weizerbüken (a cópia não-autorizada deste texto pode resultar em pena de morte).

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~ por Klaus die Weizerbüken em 01/06/2014.

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