Da Racionalidade e do Amor

                Observador e cientificamente curioso como sempre fui, tenho prestado bastante atenção em meus cachorros (e não são poucos — 9) e em outros animais de estimação com os quais tenho contato por aí, atentando, principalmente, a seus comportamentos e reações quando da interação com o mundo que os rodeia. De alguns anos pra cá, tenho me indagado “o que passa pela cabeça de um cão ?”, “como um cão vê e entende o mundo ?”, “um cão consegue pensar (no sentido racional da palavra, claro) ?”. O “objeto de estudo” aqui são cães, mas poderia ser qualquer outro: pardais, arraias ou lesmas. Depois de muito tempo pensando sobre o assunto (ainda mais recentemente, influenciado por frutíferas discussões sobre racionalidade e consciência com o colega filósofo Wilhelm) e baseando-me nas observações que fiz ao longo desse período, cheguei a uma conclusão triste para (creio eu) todos os possuidores de animais de estimação e defensores dos animais de forma geral, mas que faz jus a uma mente que diz ter simpatia por Schopenhauer (velho solitário e triste cujo melhor amigo era um cachorro): animais irracionais não amam. Parto do pressuposto mais elementar de que se pode partir: amar (pelo menos, como nós, seres humanos, entendemos esse verbo) é um ato racional. Isso mesmo, racional. Pode até parecer uma afirmação contraditória, visto o que se diz a respeito da dicotomia “emoção x razão”, mas, ao contrário da milenar crença popular, o coração nada tem a ver com o amor; este se desenvolve e reside no cérebro, assim como qualquer outro sentimento.

                É preciso esclarecer desde já, para os desatentos, que sentimento e sensação são coisas distintas. Dor, arrepio, calor, frio e até mesmo alegria são sensações, ou seja, são causadas por estímulos mundanos que acarretam reações físico-químico-biológicas em um organismo vivo. Para senti-las, basta ter sido “agraciado” pela evolução com um organismo complexo o suficiente (e.g., terminações nervosas para sentir temperatura). Sentimentos, por outro lado, exigem algo muito complexo, algo que só foi “concedido” pela “mãe natureza” a um ser vivo: esse algo é o intelecto desenvolvido e esse ser é o humano. Não quero, de forma alguma, enaltecer nossa raça, mesmo porque a desprezo mais que tudo neste planeta. Preferiria viver minha vida inteira rodeado de cães e outros animais “burrinhos” a ter de aturar esses insanos seres pretensiosos que andam sobre duas patas.

                Voltando ao assunto, porém, você deve estar morrendo de raiva de mim por eu dizer uma verdade tão inconveniente e, ao mesmo tempo, indagando-se a respeito do afeto que seus animais por você sentem. “Como pode ele dizer que um cachorro ou um gato não ama ?? Meu gato me ama e sei disso !”. Calma lá; segundo minha teoria (que há de se provar verdadeira alguma dia, ainda que eu não leve o crédito), existe uma explicação perfeita para isso: como qualquer animal irracional, um cachorro ou um gato é movido única e exclusivamente por instinto. Ele vive num eterno “piloto-automático” de atitudes e comportamentos que deve adotar ao longo de sua vida nas mais diversas situações. “De onde vem isso ?”, você se pergunta. Nosso amigo shrewsburyano Charles Darwin já havia pensado sobre isso nos idos do século 19 e eu reitero a teoria do mestre: genética. TUDO, absolutamente tudo que nós fomos, somos e seremos algum dia em nossas vidinhas miseráveis no que diz respeito a capacidades ou habilidades está em nossos genes. Você nunca se perguntou o porquê de aquele seu amigo ser um “deus da guitarra” ao passo que você nem consegue tocar o acorde mais simples ? Por que algumas pessoas são boas em matemática e em física e outras em música e em poesia ? Por que algumas pessoas têm facilidade com línguas e outras mal conseguem falar a sua própria ? Predisposição genética. Tudo isso (e muito mais) está escrito em nossas cadeias de ADN em forma de informação genética, que é hereditária. Entre essas informações, está um “roteiro” que todo animal tem de seguir (simplesmente por não ter outra escolha, uma vez que não possuem raciocínio e que não são capazes de fazer proposições lógicas que lhes permitam uma alternativa). O único ser que consegue encontrar uma saída é o homem; mas não se engane ! O homem (e as mulheres estão aqui inclusas, pro caso de alguma feminista estar lendo este texto) também tem instinto tanto quanto qualquer outro animal. O problema é que ele é tão pernóstico que sequer pensa a respeito, e mesmo que pense, recusa-se a admitir que também é movido por instinto, tal como um esquilo, um escorpião ou uma barata. Ele refuta a idéia de que é apenas “mais um” entre tantos animais, tanto é que nunca se lembra de que ele próprio É UM ANIMAL. Refere-se aos elefantes e às girafas como “animais”; mas ele não é um também ?

                Enfim… voltando ao assunto mais uma vez, animais irracionais agem por instinto. Toda sua vida é nele baseada. Um ser vivo preocupa-se, mais elementarmente que qualquer outra coisa, em continuar vivo. É simples assim. Logo, o instinto de sobrevivência é o primeiro e mais importante. Ele engloba várias atitudes vitais, como busca por alimento, fuga de predadores e construção de local seguro e confortável para acomodação. O que quero dizer com isso ? Quero dizer que seu cachorro ou gato não ama você; ele quer, primariamente, que você o alimente. Em um segundo plano, quer também receber agrado, pois de bobo ele nada tem (e, como já mencionado anteriormente, um cachorro é capaz de sentir prazer e alegria ao ser agradado pelo fato de serem sensações físicas — lembre-se de que alegria, em biologia, é traduzida como “hormônios”). Não quero passar a impressão de que seu animal de estimação é interesseiro; pelo contrário, interesse exige raciocínio, algo que eles não possuem. Poderíamos até dizer que são “interesseiros sem consciência”, simplesmente por não saberem que estão se comportando de maneira interesseira, mas, se não há consciência do fato, não há culpa. Só um ser consciente do que faz pode ser julgado pelo que faz.

                E o afeto ? Existe ? Claro que existe. É de se esperar que um animal de estimação crie certo tipo de afeto pelo dono, mas não um afeto consciente, e sim um “afeto behaviourista”. Ao avistar o dono, um cão sabe, intuitivamente, que ganhará comida e/ou agrado, simplesmente porque foi isso que lhe foi passado através de anos e anos de estímulo e resposta. E que prova maior se tem de que um ser não é racional senão o fato de ser inteiramente movido por E-R ? Não existe possibilidade de um cachorro sugerir uma proposição lógica, ou seja, ele segue à risca um roteiro interno cuja primeira metade é inata a ele e a segunda foi construída ao longo dos anos de assujeitamento comportamental mediante interações de cunho indivíduo-meio. Um animal irracional é aquele soldado raso que segue, sem pestanejar, todas as ordens do superior e nunca se indaga o porquê de tudo aquilo, tampouco pensa em mudar sua “rotina”. O humano é o soldado rebelde, que não gosta de receber ordens e prefere fazer o que bem entende de sua própria forma, mas que, vez em quando, tem de ceder ao superior e fazer alguma obrigação, mesmo que não queira (instinto humano).

                Um ótimo exemplo de instinto é a vida de serventia das abelhas e sua forma de comunicação. Sabe como elas se comunicam ? Primariamente, dançando. Cada “passo” da dança que desempenham no ar significa algo. Exemplo: se uma abelha quer pedir a outra que vá buscar mais pólen, ela “faz um 8 no ar” (repito: isto é um só exemplo, apesar da “dança do 8” realmente existir). Segundo interpretações das análises observatórias de Frisch e várias teorias lingüísticas, essa comunicação não é linguagem. Popular e informalmente, até poderíamos dizer “a linguagem das abelhas”, mas, tecnicamente, elas não possuem linguagem. Linguagem é qualquer forma de comunicação consciente e provida de proposições racionais que permitem desencadear um processo lógico sequencial entre dois seres vivos. Isso não acontece com as abelhas porque elas não fazem idéia do que estão fazendo (apenas o fazem porque é instintivo, é o que “manda” o roteiro internalizado) e porque não há proposições lógicas numa “conversa abelhística”; sempre será usada a mesma dança para passar exatamente a mesma mensagem entre absolutamente todas as abelhas e nunca a receptora da informação passada pela dança poderá concordar ou discordar do que foi “dito” ou fazer um julgamento de valor do “enunciado” que acabou de ver. Só o que pode fazer é ver a dança da colega abelhinha e interpretá-la como qualquer outra interpretaria (não é uma interpretação subjetiva, com a qual nós, humanos, estamos acostumados; é uma interpretação intransigente, compulsória, unívoca).

                Outro grande exemplo: as incansáveis formigas. Na maioria das vezes, sequer são chamadas de animais. São apenas “insetos” (termo que parece dar uma idéia de inferioridade). Contudo, vivem muito bem em sociedade, tal como as abelhas. São organizadíssimas, são responsáveis, são bravas (no sentido de corajosas), são fortes, são visionárias (de sua própria maneira). É espantoso, mas as danadas conseguem ser tudo isso e fazer tudo o que fazem (e é muito) sem um pingo de razão. Fazem o que têm de fazer porque o têm de fazer, nada mais, nada menos. Para variar, temos também o exemplo das tartarugas-marinhas, que, logo ao nascerem, rumam em direção ao mar. Como elas se guiam ? Pela claridade da lua (ainda não enxergam direito, mas conseguem ter percepção de claro e escuro). Não é uma maravilha da natureza o fato de elas sempre nascerem à noite ?? Como seria se nascessem de dia, quando está tudo claro ? Suponho que iria uma pra cada lado. E o mais impressionante é elas já nascerem sabendo que têm de ir pro mar, caso contrário, morrem dentro de pouco tempo (provavelmente, devoradas por algum predador). Elas simplesmente sabem. Os animais irracionais todos simplesmente nascem sabendo, não são ensinados. Nesse sentido, instinto é saber fazer algo sem saber fazê-lo. Logo, instinto prescinde de razão.

                Creio que, até aqui, já tenha conseguido expressar minha opinião a respeito do assunto principal do texto. É um assunto tão complexo que me sinto na obrigação de falar sobre vários outros só para poder explicar o primeiro. Como tempo e paciência são fatores relevados na hora de se ler um texto, contudo, darei, agora, início ao desfecho deste ensaio pseudo-científico: analisarei proposições feitas por cientistas acerca da consciência dos animais (não-humanos). Um estudo conjunto feito por diversos estudiosos das áreas biológica e médica foi um dos fatores-causa desta minha escritura. Nada mais apropriado, então, que analisá-lo parte por parte, comentando, à luz de tudo que expus até agora, cada um de seus pontos. Já aviso desde já que é um texto bem interessante, principalmente para quem se encontra nas áreas da biologia, filosofia, medicina, psicologia e até direito. Não sou de nenhuma dessas áreas, mas, como disse na primeira linha do texto, sou curioso quando o assunto é ciência, então sempre fuço algo relacionado a esses temas. Para os interessados, o artigo é este: http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/quase-humanos. Vamos lá:

                Logo no título, já temos uma leve exacerbação: quase humanos ? Façam-me o favor, heim ? Por conta de uma descobertazinha sobre a constituição física do cérebro de animais eles já querem equiparar avestruzes a homens ? Título um tanto enganador…

                Um pouco abaixo, um dos líderes da pesquisa afirma “As estruturas cerebrais responsáveis pelos processos que geram a consciência nos humanos e outros animais são equivalentes. Concluímos então que esses animais também possuem consciência”. Algumas linhas abaixo, temos algumas “provas” dessa tal consciência. Diz uma pesquisadora que golfinhos, elefantes, chimpanzés e pássaros conseguem se reconhecer no espelho. O grande problema é que consciência, apesar de ser um termo assaz complexo de se definir ou conceituar, vai muito além disso. Consciência é muito mais que reconhecer a si próprio diante de um espelho; é saber quem é, onde está, quando está, tomar atitudes facultativas advindas do poder de decisão e ter noção do que essas atitudes podem gerar como conseqüência. Compreender os efeitos que suas próprias ações causam no meio em que vive é um dos preceitos básicos do que se entende como consciência, seja pela lente filosófica (subjetiva), seja pela científica (objetiva). E isso, meus amigos, os animais irracionais não conseguem fazer por uma impossibilidade física (limitações cerebrais).

                Logo em seguida, volta o tal de Low e diz que um cachorro sente dor, alegria, prazer e medo. Para não soar repetitivo, só direi que já abordei isso lá em cima, sendo esses três primeiros substantivos abstratos meras sensações, que podem ser apreendidas por qualquer ser vivo que tenha um organismo suficientemente desenvolvido para tal (pronto, acabei repetindo). Medo é um pouco diferente, pois não se trata de uma sensação percebida por nossas terminações nervosas, mas não deixa de ser uma reação física normal de nosso organismo quando nos sentimos ameaçados por algo. Assim, está intimamente ligado ao instinto de sobrevivência. Na floresta, é prudente ter medo do predador e dar no pé para continuar vivo, concorda ?

                Depois: “Queremos que esses animais recebam direitos fundamentais, que a justiça as enxergue como pessoas, no sentido legal.” Isso, de acordo com o advogado, quer dizer que esses animais teriam direito à integridade física e à liberdade, por exemplo. “Temos que parar de pensar que esses animais existem para servir aos seres humanos”, defende Wise. “Eles têm um valor intrínseco, independente de como os avaliamos”. Calma aí, senhor Sábio. Concordo com tudo que você disse, mas é preciso esclarecer esse “que a justiça os enxergue como pessoas no sentido legal”, pois, se de fato levarem em conta as pesquisas e concluírem que animais irracionais realmente têm consciência, eles passariam a ser imputáveis. Até o presente momento, animais irracionais e humanos jovens são considerados inimputáveis e não seriam punidos de qualquer forma caso eles matassem alguém, por exemplo. Eles seriam, simplesmente, “assassinos inconscientes”. Se admitirmos que tais animais têm consciência, então teremos de admitir que eles sabem o que estão fazendo, e, dessa forma, todo nosso código penal teria de ser revisto. Direitos aos animais sim, mas só os que fazem sentido ! De que adianta tirar um macaco da jaula do zoológico alegando liberdade e depois jogá-lo numa outra jaula alegando cometimento de um crime ? Um pouco absurdo, não ? Sei que provavelmente não tenha sido isso que ele tenha querido dizer, mas é bom esclarecer porque esse negócio de interpretação é muito perigoso.

                Para nos encaminharmos ao final desta bíblia cética que você está lendo, vamos à última parte das refutações: análise dos vídeos disponibilizados como “exemplos” de consciência e/ou de inteligência. O primeiro mostra um polvo em duas situações: tentando conseguir pegar seu alimento (um crustáceo que se encontra em local de difícil acesso) e tentando escapar de um espaço pequeno por outro menor ainda, por onde ele, teoricamente, não conseguiria sair. De fato, ele tem sucesso em ambos os casos. O título do vídeo até diz “a suave inteligência dos polvos”. Desculpem-me, perdi algo aqui ? Onde está a inteligência ? O que vejo, nos dois casos, é puro instinto. No primeiro, vejo simplesmente um predador tentando de várias formas conseguir capturar sua presa. Lembre-se de que estamos falando de alimento, algo vital a qualquer ser vivo. Assim, é óbvio que ele tentaria de todas as formas conseguir sua comida, pois ela é a única disponível a ele naquele cubículo. Com um pouco de esforço, ele se dá bem e almoça (ou janta) um belo caranguejinho. Missão cumprida. No segundo caso, mais uma vez o instinto de sobrevivência fala mais alto: o polvo se encontra em um local fechado apertado. Imagine-se dentro de um caixão, enterrado vivo. Pois é, deve ter sido essa a sensação que ele teve. Logo, a fuga daquele lugar seria a atitude mais básica a se tomar. É exatamente o que ele faz, contorcendo-se a ponto de passar por um cano estreito. Lutando por sua vida, ele consegue escapar.

                No segundo vídeo, acontece basicamente a mesma coisa com o corvo ao usar um instrumento para conseguir comida, então nem comentarei.

                No terceiro vídeo, vemos um grupo de elefantes resgatando um filhote que estava se afogando num lago. Por sorte, eles conseguiram (e espero que todos que assistiram ao vídeo tenham torcido pra isso). Mais uma vez, não vejo qualquer sinal de inteligência no sentido intelectual, só “inteligência instintiva”. Se um filhote de qualquer animal está em perigo, em risco de morte, é um dever dos pais (geralmente da mãe, que é sempre a mais atenciosa e protetora) ajudá-lo, mesmo que não consigam. Isso me lembra dum vídeo amplamente divulgado há alguns anos (e ainda disponível em sítios de vídeos) de uma manada de búfalos sendo atacada por leoas (são as fêmeas que caçam, enquanto os leões ficam deitados à sombra de alguma árvore esperando a “marmita” chegar). Por questões um tanto óbvias, elas escolheram justamente o único filhote do bando. Atacaram-no e o feriram gravemente, enquanto os outros fugiam. Em dado momento, eles resolveram voltar e contra-atacar as leoas, que se assustaram com mais de 10 búfalos vindo em sua direção e saíram correndo. Não sabemos o que acontece com o filhote, pois o vídeo acaba aí, mas deduzo que tenha morrido, uma vez que não há antissépticos ou band-aids na natureza (bem… não como os nossos).

                Enfim, é inegável que esses animais dos exemplos mencionados tenham certo entendimento do que se passa nessas situações e que eles saibam como reagir diante delas, mas não que isso seja uma prova de que raciocinam. Animais irracionais são capazes, sim, de fazer algumas associações lógicas simples, como encontrar o devido espaço para encaixar cada peça de um joguinho infantil, mas nada mais que isso. Os mais “intelectuais” equiparam-se a crianças bem novas, entre 2 e 6/7 anos, que se encontram no período de desenvolvimento Pré-operatório descrito por Piaget. Qualquer atitude de uma criança nessa fase ou de um animal irracional que aparente ser “inteligente” pode, na verdade, ser explicada pelo já tão batido instinto, por condicionamento operante (E-R e conseqüência, descrito por Skinner) ou, simplesmente, por tentativa e erro (um pouco de sorte envolvida também). Se um macaco ou um bebê tentar colocar uma peça redonda dentro de um espaço quadrado, ele obviamente fracassará e tentará de novo. Uma hora qualquer, poderá pegar justamente a peça redonda e colocá-la no devido espaço. Ele perceberá que deu certo e saberá, daí para frente, que aquele espaço X é o que comporta a peça Y. Isso é uma simples associação natural, não pensamento lógico propriamente dito. Pensamento lógico seria ele pensar “bem, eu tenho uma peça redonda em minha mão. Onde poderia encaixá-la ? Já sei, no espaço redondo, pois são de formatos iguais. Se eu tentar colocá-la no espaço quadrado, ela não entrará”. Ainda sobre essa fase proposta por Piaget, devemos nos lembrar de que uma criança dessa idade tem dificuldade em entender mudanças e transformações; seu pensamento comporta-se de maneira estacionária. Com os animais irracionais não é exatamente o mesmo ? Coloque uma máscara e chegue perto de seu cachorro. Ele começará a latir achando que você é um estranho. Seu tamanho não terá mudado, tampouco seu formato, seu cheiro, sua voz. Só o que terá mudado será seu “cartão de visitas biológico”, a face. Uma mudança tão simples e que ele não é capaz de perceber. Assim que você tirar a máscara, ele voltará a tratá-lo como o dono que sempre foi (lembrando: dono para os cães = aquele cara que me dá comida, água, agrado e abrigo).

                É interessantíssimo, também, que o grande fator que evidencia uma mudança de estágio de desenvolvimento, elevando o nível da criança à fase Operatória Concreta (7 a 11 anos), é… (rufem os tambores) …início do uso do raciocínio lógico, mesmo que para processos de nível elementar ! Essa lógica permite à criança fazer associações inferenciais e deduções básicas sobre o mundo que se apresenta diante de seus olhos. Quanto à fase última, a Operatória Formal, podemos resumir que é um aprofundamento do raciocínio (entre outras coisas). Assim, minha conclusão quanto a isso é que os animais irracionais mais “inteligentes” (chimpanzés, gorilas, golfinhos, elefantes, porcos) tem a “mentalidade” de uma criança de, no máximo, 7 anos (chutando bem alto, mas bem alto mesmo). Se você parar para pensar, é algo grandioso para eles, visto que alguns seres humanos adultos com problemas de ordem cognitiva não chegam nem a 5, mas ainda assim não é o suficiente para que possamos afirmar que possuem capacidade de raciocinar.

                Não poderia deixar de escrever todo este ensaio sem mencionar, também, as FPS, que tudo têm a ver com nosso tema. FPS são Funções Psicológicas Superiores, que se “opõem” às Funções Psicológicas Elementares. Abordados por Vygotsky há mais de 80 anos, esses conceitos não são nada novos; já se faziam estudos sobre racionalidade em animais desde antes da segunda grande guerra, não é um assunto moderno. Resumindo, todo ser humano (assim como outros animais), nasce com FPE. Ao longo da infância, vai adquirindo, aos poucos, as FPS. Na verdade, adquirir nem seria o termo, pois ele as aprende. Os animais irracionais, por outro lado, continuam com as FPE pro resto da vida. Mas o que seriam elas ? O que diferencia um animal irracional ou uma criança bem nova de um adulto (mais uma vez volta à tona a comparação entre esses animais e crianças) ? Pois bem: as funções superiores são, por assim dizer, evoluções das funções elementares com algumas adições mais profundas. Basicamente, as FPE são sensações físicas percebidas pelos sentidos, atenção não-consciente, memória natural, reações emocionais básicas, reações físicas automáticas, ações reflexas e associações simples, ou seja, processos de ordem biológica. Estão intrinsecamente ligadas ao modelo de estímulo-resposta. As FPS são atenção consciente, memória focada e voluntária, memorização (sim, é diferente de memória), reações emocionais complexas, pensamento abstrato, imaginação, raciocínio dedutivo, discernimento, capacidade de planejamento, capacidade de representação simbólica e linguagem, além da própria consciência. Essas características mais avançadas que os humanos podem aprender (atenção: podem) são exatamente as qualidades que lhes possibilitam uma independência das características do tempo e do espaço vigente e presente, respectivamente. São processos intimamente ligados ao convívio sócio-cultural, ao aprendizado transmitido e apreendido por meio da relação com outros seres do meio. As FPE são resultado direto de estímulos do ambiente e não são executadas conscientemente pelo ser, sendo caracterizadas apenas como reflexos, que são justamente reações naturais e automáticas. Dessa maneira, temos que as FPS, segundo o próprio estudioso bielorrusso, constituem funções tipicamente humanas por serem intencionais, voluntárias e conscientemente controladas.

                No quarto e último vídeo, vemos um cientista afirmando que, por meio de estudos que ele fez com aparelhos de áudio modernos, foi comprovado que ratos riem. Primeiramente, não sei em que ele se baseia para asseverar que aqueles ruídos emitidos pelos ratos sejam risadas; até podem ser, mas acho que ele fundamentou sua afirmação somente em uma dedução. A grande questão é que o comentário abaixo do vídeo diz “Isso só ocorreria, defendem os pesquisadores, se o animal tivesse algum tipo de consciência. ‘Não é possível rir inconsciente’, argumentaram”. É aí que está o engano; esqueceram-se de considerar que existem dois tipos de risada: a processada fisicamente e a processada mentalmente. A suposta risada dada pelos ratos é produzida por conta de um estímulo físico na barriga deles. Volto a bater na mesma tecla: se o rato tem um organismo munido de sistema nervoso e de uma pele dotada de terminações nervosas, ele consegue sentir cócegas, assim como alguns outros animais (exemplo: macacos). Concluímos, então, que ele seria capaz de rir quando “cutucado”. A afirmação “não é possível rir inconsciente” é um disparate, pois só leva em consideração a risada processada mentalmente, que é aquela que vem após ouvirmos uma piada. As palavras, em si, não têm graça alguma. Quando as juntamos e as colocamos num contexto que seja cômico, entretanto, criamos uma situação risível (talvez não para todos, pois estamos lidando com humor, algo muito subjetivo). Independentemente de você rir ou não de uma piada, você, em teoria, pelo menos é capaz de entendê-la. Nesse sentido, você é um ser consciente, e, caso ria, rirá conscientemente porque sabe do que está rindo; você teve a opção de rir ou não, escolhendo a primeira. O rato não teve escolha, não riu porque achou graça; riu porque teve um reflexo corpóreo natural, tal como um espirro.

                Conclusão final (porque existem “conclusões parciais”): um animal irracional é assim denominado por um motivo justo e inegável. Talvez ele nunca deixe de sê-lo. Depois de, literalmente, milhões e milhões de anos de evolução, esses animais continuam não sendo racionais. Por que isso haveria de mudar nos próximos milhões de anos ? É apenas suposição, mas creio ter certo embasamento histórico-biológico para fazer uma pseudo-previsão do futuro desses animais. O ponto principal desta conclusão, contudo, nem é esse. O cerne da questão é o ser humano. Depois de tudo, concluo que o humano é um ser carente e inseguro que precisa se sentir amado para ser socialmente aceito (e, se o homem é um ser social, trata-se de algo vital para ele). Presunçoso do jeito que é, ele conclui sem evidência alguma que todos os animais que o rodeiam o amam. Isso, para mim, não passa de um preconceito arrogante que tem como objetivo final afagar o próprio ego.

                E assim, caro amigo, chegamos ao fim deste ensaio. Garanto que tudo isso não chega nem a metade de tudo em que pensei e que gostaria de “dizer”, mas ainda há muito pano pra manga, então deixarei para abordar esse assunto novamente em algum outro ensaio no futuro (não estou fazendo nenhuma promessa !).

                Antes de finalizar, contudo, acho conveniente deixar claro aos que não entenderam meu ponto que eu adoro animais (e odeio humanos). Não é pelo fato de eu os achar intelectualmente inferiores que eu deixo de gostar deles ou de respeitá-los. Animais, mesmo os menores e mais “insignificantes” (a nosso ver), fazem parte de nosso mundo, e desrespeitá-los significa desrespeitar nosso meio e a nós mesmos. Direitos aos animais já !

© 29/30/31 de Outubro e 1/2 de Novembro de 2013, por Klaus die Weizerbüken (a cópia não-autorizada deste texto pode resultar em pena de morte).

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~ por Klaus die Weizerbüken em 16/11/2013.

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