À Espera da Inesperada

            Quando a morte, finalmente (ou talvez nem tão “finalmente” assim), bater à minha porta, abrirei meus braços e recebê-la-ei com um cordial amplexo; convidá-la-ia para tomar um café, tocar um instrumento em dueto, jogar conversa fora… um bate-papo macabro. Quem sabe até não a desafiaria para uma partida de buraco ? “Esperei você por tantos anos; agora é sua vez de matar tempo aqui comigo” (sem trocadilhos). Perguntar-lhe-ia sobre todos os meus entes queridos, familiares ou não, que já tivessem partido: como eles a receberam ? Quais foram as últimas palavras ? Algum recado para mim ?

            Antes de tudo isso, porém, algumas dúvidas me atazanam; dúvidas a respeito do código social de etiqueta funérea a ser seguido quando de sua chegada… Primeiramente, como devo cumprimentá-la ? Como se cumprimenta… a morte ?? “Oi, ouvi falar muito de você !” ? Não deixa de ser verdade… “Olá, o prazer é todo meu.” ? Pura hipocrisia; quem estará se deliciando será ela. “E aí ?” ? Talvez muito informal… “Opa…” ? Não soa adequado. Enquanto ela não chega, vou treinar aqui em frente ao espelho pra ver se sai algo.

            Segundamente, o que vestir para uma ocasião dessas ?? Traje de gala, roupa social ou indumentária hippie ? Tenho a impressão de que ela gosta de preto, então um terninho bem arrumado ou mesmo um smoking acompanhado de gravata borboleta podem me cair bem (gravata borboleta é sinônimo de elegância, não?); até combinariam com aquela túnica lôbrega e encardida que ela deve estar usando desde o início dos tempos. Pensando bem, acabo de ter uma idéia melhor: oferecer-lhe-ei vestes novas; todos temos direito a uma pequena mudança de visual de vez em quando, não ? Ela não deve passar por uma mudança dessas há quase 14 bilhões de anos, então quem sabe ela não curtirá vestimentas mais leves, soltas e coloridas ? Daquele jeito soturno ela sofre muita discriminação, coitada… Suponho que, com um vestuário mais descontraído, seu aspecto melhore e que ela fique mais “sociável” e, conseqüentemente, que seja mais aceita pelos habitantes mundanos (já imaginou que solidão deve ser quando se é a morte ?).

            Em terceiro lugar, pensei também: será que devo preparar a mesa ? Será que ela terá tempo suficiente para se sentar e tomar uma xicarazinha ou duas do pó negro ou estará “morrendo” de pressa e sequer poderá se acomodar para me fazer companhia por um último gole ? E se ela pudesse ficar, mas não aceitasse o cafezinho que ofereceria ? Quem sabe um vinho daqueles chiques, franceses, de nomes complicados, que passaram não sei quantos anos em tonéis de madeira ? Sei lá, deduzo que a morte deva ser refinada. Se aceitasse algo para beber, o que oferecer para comer ? Um aperitivo prático, tipo umas coxinhas ? Pão com salame ? Uns biscoitinhos ? Bolacha de água e sal ? Ou, ainda, uma refeição completa com direito a arroz, feijão e tudo mais ?? Decerto, estará faminta; tem uma “vida” dura, um trabalho fastidioso e, cá entre nós, meio deprimente (sendo bem eufêmico). Se bem que, estando meio pra baixo, talvez nem tenha muita fome. Quer saber ? Creio que seja melhor perguntar o que ela vai querer quando chegar, em pessoa (ou em morte ?).

            Pensei com meus botões e acabei concluindo que também não custaria nada convidá-la a ver um filme ou dois – se bem que filmes demoram, talvez uns episódios de séries sejam melhores. Vai ver que ela também queira assistir um pouco à televisão, inteirar-se das notícias do mundo dos vivos (será que ela dá a mínima ?)… Depois disso tudo, se estivesse cansada, acometida de uma madorna insuprível, ofereceria um quarto vago que tenho no andar de cima para um rápido repouso, uma sesta tétrica. Não sei se ela gostaria da idéia – tenho a leve impressão de que a morte nunca descansa –, mas não me ofenderia se ela recusasse. Quando acordasse, poderíamos continuar nossa conversinha tomando um chá das cinco (isso deduzindo que ela virá me buscar antes do fim da tarde; se vier depois, podemos tomar um “chá das nove”, não tem problema). Por um dia, ela seria a companhia que nunca tive !

            Em último lugar, mas não menos importante, indago-me se ela concederá a mim últimas palavras. Quero fazer bonito. O que poderia eu dizer numa hora dessas ? “Adeus, mundo cruel !” ? Clichê sem vergonha. “Tchau.” ? Muito lacônico. “Gostaria de mandar um abraço a todos aqueles que passaram por minha vida e que me marcaram para sempre de forma que nunca os esquecesse.” ? Muita delonga. “Anotai minhas palavras: vós sentireis minha falta.” ? Narcisista e pernóstico demais. “Não chorem por mim; nem notarão que me fui.” ? Modéstia que beira a auto-humilhação. Não sei. Ainda não. Prometo a mim mesmo que pensarei a respeito e que não decepcionarei quando a hora do discurso derradeiro chegar. Não deve demorar, inclusive. Sinto que está próxima. Mas não me entristeço, não; feliz, não fico, mas não carece de entristecimento. Se ela vai chegar mesmo, não faz muita diferença o “quando”, e sim o “como”. Só espero que ela me dê um tempinho para terminar de consertar o piano… Acho que um mês é o suficiente. Se bem que… o tensor do violão precisa de uns ajustes… e a cortina do quarto precisa ser encaixada. Tem também uns quadros para pendurar na parede ao lado. Isso sem falar na cadeira do jardim que deixei para pintar quando fizesse mais sol. E também tem o livro que estou para terminar há meses, faltam alguns capítulos. Por falar nisso, tenho inúmeros poemas inacabados que gostaria de completar… Aliás, falando em completar, não posso partir sem completar a churrasqueira que comecei a erguer no quintal. Quintal ? Quem cortará a grama quando eu me for ?? E os cachorros, quem os alimentará ? Puxa… Pensando bem, acho que nunca estarei totalmente pronto. Sempre terei algo para fazer por aqui. Ela me pegará, inevitavelmente, no meio de algum ambicioso projeto, de uma brilhante idéia, de uma inventiva criação, de um árduo reparo, de uma prolífica escritura. Decepcionante, né ? Mas tudo bem, eu acho… Será inevitável mesmo. A não ser que… eu pedisse uma prorrogação ! Será que ela me concederia um tempinho a mais ? Algumas luas, não muitas, seriam o bastante. Depois de tudo que teria feito para e por ela, talvez se eu pedisse com um “por favor” seguido de um “agradeço desde já” ela ficasse com o ego nutrido e amolecesse ! Ah, mas o que é isso ? Que raios eu estou dizendo ?! Onde já se viu um moribundo pedir prazo extra ?? Não, não, não; não é justo. Ela deve ter um cronograma apertado tendo que matar uns aqui, outros ali. Mesmo que o tempo seja seu inseparável colega de trabalho (e quiçá pudesse dar uma “esticadinha” se ela pedisse), não posso interferir na “vida” dessa forma. Quem sou eu pra olhar nos olhos da morte e ter a cara de pau de pedir que não faça seu trabalho ?

            Acho que, nos momentos finais, nos segundos anteriores às minhas últimas inspirações, no fim da linha de minha nem tão longa viagem por esse ônibus público barulhento e sem motorista que é a vida, devo agradecer a ela. É, isso mesmo, agradecer. Agradecer por ter sido a única certeza nesta vida tão incerta. Que profissão seguir ? Ele está dizendo a verdade ? Será que ela me ama mesmo ? Por que chove ? Como surgiu o universo ? Deus existe ? Quem somos, de onde viemos e para onde vamos ?? Pois é… certezas não fazem parte da vida; fazem parte – quem diria – da morte !

 

© 6 de Setembro de 2012/2 de Janeiro e 26/27/28/29 de Agosto de 2013, por Klaus die Weizerbüken (a cópia não-autorizada deste texto pode resultar em pena de morte).

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~ por Klaus die Weizerbüken em 01/09/2013.

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