Cansamento, o conto

Ela acordou diferente. Não que ele já não tivesse notado algumas mudanças sutis e graduais nos meses anteriores, mas, naquele dia, tudo parecia estar diferente.

 

— Quer café ?

— Não.

— Quer pão ?

— Não.

— Você adora comer pão de manhã… O que aconteceu ?

— Nada. Não aconteceu nada.

— Mas você está estranha…

— Não estou estranha, Roberto.

— Viu ?? Tá me chamando de Roberto ! Você não chama assim desde que nos conhecemos ! Você está diferente…

— Estou igual.

— Você quer que eu prepare alguma coisa especial pra você ? Aquele omelete que só eu faço e você adora tanto !

— Não quero omelete…

— Que tal uma gelatina de potinho ? Heim ?

— Não quero…

— Amor, você está me deixando preocupado… Está doendo ?

— Não tem nada doendo, Roberto.

— Você está doente ??

— Não estou doente !

— Mas não é possível ! Alguma coisa está diferente em você ! Que bicho a mordeu ??

— Você não entende…

— Não entendo o quê, Luíza ?

— Não sei explicar direito…

— Tente.

— Não tem a ver com você. Bem, não totalmente. A questão é comigo, mesmo.

— Que questão ? Do que está falando, amor ?

— Tá vendo ? Você não entende…

— Como poderia entender ?? Não sei do que está falando ! Tudo que sei é que você tem estado estranha nesses últimos meses. Nos últimos dois meses, então, nem se fala… já não reconheço mais você ! É como se tivessem trocado minha querida, a menina de que gosto tanto, por outra e não tivessem me avisado !

— Já falei que não mudei. Estou igual.

— Não é o que parece… Só eu percebi isso ? Vai me dizer que não percebeu mudança alguma em você e na nossa relação nos últimos tempos ?

— Percebi.

— Então está se contradizendo !

— Não estou, Roberto. Você é que não entende…

— Macacos me mordam, Luíza… De que diabos está falando ?? Vai tentar me explicar ou não ? É alguma coisa que eu fiz pra você ?

— Você tem parte da culpa, mas a quantia maior é minha mesmo. Não foi algo que fez. Talvez, sim, tenham sido as coisas que deixou de fazer.

— Como assim ? Explique-me…

— Não estou com vontade.

— Mas assim não há diálogo !

— Talvez eu não queira que haja… Já estou decidida.

— Quê ? Não quer dialogar ? Pensei que tivéssemos combinado que esta seria uma relação fundamentada nos princípios da igualdade, do respeito e do diálogo construtivo. Ou vai me dizer que entrei nessa sozinho ?

— Não; era pra ser assim mesmo. Mas não deu, sabe ?

— Não, não sei ! Eu tentei fazer minha parte, mas você… Sei lá o que andou passando pela sua cabeça; as pessoas são muito estranhas. O que quis dizer com “já estou decidida” ?

— Que já tomei minha decisão, oras…

— E que decisão é essa, menina ?? Posso saber ou é tão secreto que nem o cara que você diz mais amar no mundo tem direito de ficar a par ?

 

Uma breve, porém intensa inspiração foi ouvida. O olhar, antes focado no namorado, tornou-se disperso. Suas íris marrons de ébano fitaram o nada, como se ele fosse tudo que ela tivesse naquele momento. Com um leve meneio da cabeça, para baixo, mirou, então, o centro da mesa que haviam comprado com tanta alegria e sacrifício e proferiu:

 

— Vou embora.

— Embora ?

— Sim.

— Embora ?

— Sim… Esta é a minha decisão.

— Luíza…

— Roberto ?

— Como você pode me dizer algo assim ? Ainda mais agora…

— Por que não diria ?

— Respeito… Consideração… ou simplesmente razão, mesmo.

— Por quê ?

— Por que simplesmente não faz sentido ! Pra onde vai ??

— Ainda não sei…

— Tá vendo, nem sabe pra onde quer ir ! Diria até que nem sabe se quer ir !

— Quero, sim. Pensei muito sobre isso.

— Ah, pensou ? Desde quando ? E por que eu não estava incluso nesses pensamentos ?

— Você estava. Só não foi o suficiente pra me fazer mudar de idéia.

— O que mais não foi o suficiente ? A casa que alugamos juntos e sofremos pra pagar todos os meses ? Todos os objetos que compramos para ela ? Seu cachorro e seu gato, que alimentamos com restos de comida para economizar em ração ? Seus trabalhos, onde alunos sedentos por conhecimento a aguardam todos os dias por alguns momentos de esclarecimento racional ? Nossos planos pro futuro, que incluíam o filho mais feliz que o planeta já teve ? Nossos sonhos de mudar o mundo mesmo sabendo que estamos remando contra a maré ?

— Pare, Roberto.

— Dói, não é ? Dói pensar em tudo isso e como foi tudo em vão.

— Não dói; só não quero pensar em nada disso.

— Não afeta você porque não quer pensar sobre. Se pensasse, já estaria chorando, maria-mole do jeito que é…

— Não estaria. Sou forte…

— Não, essa é a imagem que você passa. Só quem conhece você assim como eu, bem de pertinho, por dentro, sabe que, à noite, no escuro, você não consegue dormir e chama meu nome.

— Isso só aconteceu algumas vezes, mas não tem nada a ver com o assunto.

— Tem, sim. Tem, porque revela um lado seu que você faz de tudo pra esconder. Seu lado inseguro, seu lado incerto, seu lado temeroso, seu lado que, às vezes, gostaria que o mundo fosse mais gentil com você por tudo que passou; e não é…

— Chega.

— Chega ? Não quer ouvir ?

— Você não é psicólogo, não tem nada que ficar fazendo análises psicológicas de ninguém.

— Ah, então só os psicólogos têm esse privilégio ?? Puxa, então vou ter de mudar de curso…

— Você está sendo ridículo. Fica me analisando agora, nesse momento delicado… Como se você também não tivesse seus medos, frustrações e inseguranças.

— Claro que tenho. Acho que também sou um ser humano, não ? A diferença é que eu tento lidar com eles e, na maioria das vezes, saio na vantagem, conseguindo lutar contra meus medos, amenizar minhas inseguranças e superar minhas frustrações.

 

Um silêncio arrebatador acometeu a saleta, que também se fazia de cozinha e quarto. Algo pairava no ar. Poderia tentar explicar aquela mescla incognoscível de sentimentos, mas não há jeito. Você teria de estar lá para sentir.

 

— Já arrumei minha mala.

— Até isso ? Pergunto-me desde quando você está assim… É como se você tivesse me enganado durante esse tempo todo…

— Não enganei a ninguém, Roberto. No máximo, enganei a mim mesma.

— Que trágico… Quer um lenço ?

— Não estou com paciência para suas ironias.

— Nem eu para com sua indecisão e suas infantilidades.

— Infantilidades ?

 

O olhar incrédulo revelava um sentimento ainda desconhecido por Roberto. Ela estava exausta.

 

— Estou exausta. Acho que já vou…

— Mas para onde ?? Você disse que não tem para onde ir…

— Disse que não sabia para onde ia. Agora já sei.

— E vai me falar ?

— Um dia, quem sabe. Tente me esquecer, Roberto…

— Esquecer você ? Taí algo realmente difícil. Vai ser uma árdua jornada sem você por aqui…

— Você se acostuma.

— Talvez. Da mesma forma que me acostumei com você aqui, com sua presença; com seu toque, seu olhar; com sua voz, seu cantar; acostumei-me até com seus costumes, Luíza. Estava tudo tão bom…

— Nada é “tão bom” pra sempre, Roberto. Uma hora acaba.

— Será ?

— Será. Não vou esperar mais para ver acontecer aquilo que já sei que acontece. Decidi-me e vou. Não é o fim do mundo, viu ?

— Não. Mas mesmo que fosse, já não faria diferença pra mim…

— A vida é assim mesmo.

— Poderia não ser.

— Tchau, Roberto.

 

E partiu. Partiu como se não deixasse nada para trás. Partiu como se não devesse satisfações a ninguém. Partiu como se, realmente, estivesse só… partindo. Partiu, simplesmente.

 

Agora você, leitor, talvez esteja esperando palavras de sabedoria deste narrador onisciente que lhe fala. Ledo engano. Eu não as tenho. Gostaria de poder dar uma explicação ou simplesmente confortá-lo com um discurso hipócrita, conquanto eufêmico. Mas não o farei. Sinto-me tão perdido quanto o nosso protagonista. Quanto ao Roberto ? Bem, ele não gosta que o vejam como uma vítima, mas também sabe que não foi nenhum herói. Simpatiza com o termo “mártir”. Talvez seja o que melhor descreve aquele que passou pelo que ele passou. De qualquer forma, o que importa ? Ele vai seguir sua vida e ela, a dela. Quem sabe um reencontro algum dia ? De todas as certezas, só uma é válida: nenhuma é certa.

 

© 7 de Maio de 2012, por Klaus die Weizerbüken (a cópia não-autorizada deste texto pode resultar em pena de morte).

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~ por Klaus die Weizerbüken em 07/05/2012.

2 Respostas to “Cansamento, o conto”

  1. Interessante… Ainda não entendo, mas muitas vezes, as pessoas se comportam como Luiza: criam um mundo com você, mas com simples atitudes destroem. Parece que as pessoas fogem da manutenção da felicidade mútua de uma relação. Creio que o maior medo de um namorado (a) é ser um Roberto, cheio de amor e confiança, quando de repente sua amada tira a máscara, e se mostra com a cara da Luiza.

    • Exatamente, meu caro. Primeiramente, é uma honra tê-lo comentando em meu humilde (ou nem tanto) blogue. Em segundo lugar, gostaria de deixar aqui meu apreço por sua bela análise das relações interpessoais atuais e de todo o contexto psico-emotivo envolvido em processos afetivos neste âmbito. Realmente, quem não tem medo de ser um “Roberto” e ser enganado por uma “Luíza” ? Um cordial amplexo (humano, não batráquio) !

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